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domingo, 8 de setembro de 2024

A Epístola à Igreja em Sardes - Parte 7

A vinda do Senhor é aqui mencionada como se a igreja tivesse caído ao nível do mundo. "E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei." Isso é muito semelhante ao que se diz a respeito do mundo em 1 Tessalonicenses 5:2: "O dia do Senhor virá como o ladrão de noite." O Senhor espera que Seu povo siga um caminho distinto, separado do mundo; mas nisso Sardes falhou. "Não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus." Havia grande conformidade com o mundo. Mesmo em Tiatira, os santos de Deus são elogiados por sua diligência, apesar do mal, e por suas últimas obras serem mais numerosas que as primeiras. Mas a ideia de obediência à Palavra de Deus e separação do mundo é pouco conhecida no Protestantismo. Portanto, eles devem compartilhar da porção do mundo. "Virei sobre ti como um ladrão." Como tal, Ele virá sobre a massa meramente professante, mas não sobre o verdadeiro crente.

"Mas também tens em Sardes algumas poucas pessoas", Ele diz, "que não contaminaram suas vestes, e comigo andarão de branco; porquanto são dignas disso." Isso é verdadeiro consolo para aqueles que caminham com o Senhor, separados do mundo. É o mundo, como cena moral, que contamina as vestes do cristão. Os poucos nomes aqui representam indivíduos. O Senhor conhece cada um que caminha fielmente na Terra pelo nome, e os assegura que andarão com Ele no céu. Bem-aventurados os vencedores; em vez de ter seu nome riscado, Ele os confessará pelo nome diante de Seu Pai e diante de Seus anjos.

Tendo assim examinado o significado da mensagem a Sardes e sua aplicação ao que ocorreu após a Reforma, retornamos com sentimentos mistos à sua história. Sinceramente gratos por aquela grande obra do Espírito de Deus; sinceramente pesarosos pelo fracasso do homem que logo se manifestou. Mas pode ser útil refrescar a mente do leitor com uma visão geral das condições sucessivas da igreja professante de Deus na terra, antes de prosseguirmos.

Em Éfeso, temos a igreja esfriando em seu amor por Cristo. "Deixaste teu primeiro amor." Essa é a origem de todo o fracasso que se seguiu. Em Esmirna, sofrendo perseguição de Satanás. Em Pérgamo, mundanismo: a igreja habitando no mundo onde está o trono de Satanás. Em Tiatira, corrupção: permitindo que a profetisa Jezabel ensinasse, seduzisse os servos do Senhor a cometer fornicação e a comer coisas sacrificadas aos ídolos. Em Sardes, morte espiritual; Jezabel não está aqui, Sardes se afastou dela e de suas corrupções. Um grande nome como de quem tem vida — uma grande profissão e aparência de cristianismo, mas sem poder vital.

A Epístola à Igreja em Sardes - Parte 6

Não só os sistemas religiosos representados por Sardes estão sem vida, mas as obras daqueles que a eles pertencem são incompletas. "Não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus", diz o Senhor Jesus. Ele espera frutos de acordo com o padrão dado e os recursos colocados à disposição da fé. Ele se apresenta como Aquele que possui toda a perfeição em poder e energia espiritual para Sua igreja, e que espera frutos que correspondam a Ele. Ele não pode rebaixar Seu padrão ao lidar com nossas deficiências. "Lembra-te, pois," Ele diz, "do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te." Ele chama a atenção deles, nesse aviso solene, para a graça que haviam recebido e para a palavra que haviam ouvido. Ele busca obras completas, de acordo com a medida da graça recebida e da verdade comunicada. Mas, infelizmente, sob o pretexto de que "não há perfeição" nem na igreja, nem no indivíduo, a ideia de obediência segundo a Palavra de Deus perdeu seu devido lugar na mente dos cristãos em geral.

Tome um exemplo do que queremos dizer — um caso comum.

Um jovem é convertido pela visita de um evangelista. Ele não tem associações ou amigos em um local de culto mais do que em outro; mas agora ele precisa frequentar algum lugar. Recomendam-lhe visitar as diferentes igrejas próximas à sua residência e se estabelecer onde ele achar que receberá o maior benefício. Este é o critério pelo qual é dito que ele deve julgar — seu próprio bem-estar. Nossa bênção pessoal é, sem dúvida, algo muito importante, e não deve ser negligenciada; mas quando ela é tornada o principal fator, em vez da vontade de Cristo, resulta em escuridão da mente e esterilidade da alma. A obediência à Palavra de Deus seria certamente uma fonte mais profunda de bênção para nossas almas do que meramente buscar nosso próprio bem enquanto se negligencia o pensamento de Deus sobre a igreja, conforme revelado nas epístolas. Mas, infelizmente, o ditado comum é: "Há coisas boas em todas as denominações, mas nenhuma é totalmente boa, portanto devemos julgar por nós mesmos e escolher aquela que achamos mais próxima das Escrituras — não existe sistema perfeito." Mas este ditado trivial, por mais plausível que pareça, só pode se aplicar a sistemas humanos de religião. O sistema de Deus deve ser perfeito; e nenhum sistema Lhe será agradável se não for perfeito. As imperfeições daqueles que estão no sistema de Deus, ou que se esforçam para executá-lo, não afetam sua perfeição divina.

A distinção entre um sistema e aqueles que nele estão é frequentemente ignorada. Supondo que alguns poucos cristãos fracos ou até mesmo falhos estivessem reunidos ao centro de Deus, isso não tornaria o próprio centro fraco ou falho; mas supondo, por outro lado, que um grupo dos melhores cristãos de toda a Cristandade estivesse reunido em torno de um centro humano, isso não o tornaria divino. Cristo é o centro de Deus, e aqueles que são reunidos a esse centro pelo poder do Espírito Santo estão no terreno de Deus, em Sua presença, e certamente receberão Sua bênção. Este deve ser nosso principal objetivo — estar onde Deus está, com plena certeza de fé, e confiar Nele para o bem de nossas almas. "Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles." (Mateus 18:20; Efésios 4:3-4)

A diferença entre o grande sistema de Sardes e aqueles que estavam nele é muito evidente na mensagem do Senhor a eles. "Não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus. Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te." A igreja deve ser julgada, não por um sistema sem vida, mas pelos recursos que ela possui em Cristo, a cabeça. O fato doloroso de que as coisas não estão agora como estavam no início não é razão para que os cristãos criem igrejas segundo suas próprias ideias e as governem por suas próprias leis. Mas este tem sido o pecado e a prática do Protestantismo até o ponto em que seus nomes se tornaram legião. "Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido" é o aviso mais solene do Senhor a Sardes e aos protestantes em geral. A Palavra revelada de Deus deve ser nosso único guia e autoridade, e a graça do Senhor Jesus Cristo nosso único poder. Ele recorda a igreja desses dois grandes pontos — graça recebida, verdade ouvida. Estes formam a medida de sua responsabilidade e o padrão pelo qual Ele deve julgar o grande sistema de Sardes.

A Epístola à Igreja em Sardes - Parte 5

Ao renunciar aos erros do papado em relação ao poder da igreja, os reformadores foram levados a um erro oposto, ao atribuir demasiada importância à opinião individual. No princípio católico, a igreja faz o cristão; no princípio protestante, os cristãos fazem a igreja; e, consequentemente, na prática, Cristo perde Seu lugar correto em ambos. Um homem, diria o sacerdote, só pode receber benefício para sua alma por meio de sua conexão presente com a Santa Madre Igreja; no momento em que ele deixa de pertencer a ela, está perdido, sendo os sacramentos sagrados os únicos meios de perdão e salvação. Ser expulso da igreja é como ser lançado no inferno; claro, se houver arrependimento, ou alguma base para a absolvição sacerdotal, a alma pode ser libertada de seu destino terrível e restaurada ao favor da igreja, o qual é a vida eterna. Mas o lugar do homem no céu, na terra ou no inferno deve ser determinado e estabelecido pela igreja. Este é o grande princípio fundamental do catolicismo romano, e o que dá ao sacerdócio tal poder ilimitado sobre seus iludidos devotos. Mas esse tipo de influência não se restringe ao romanismo; ela prevalece, em maior ou menor medida, onde quer que o elemento sacerdotal seja reconhecido: e assim tem sido desde os primeiros dias dos pais da igreja.

Os resultados desse poder profano nas mãos do sacerdócio romano tornaram-se completamente intoleráveis para todas as classes da sociedade por volta do início do século XVI. Um protesto foi levantado; logo se espalhou por toda a Cristandade; recorreu-se à Bíblia como a autoridade suprema, e a justificação pela fé somente, sem as obras da lei, tornou-se o lema dos reformadores. O jugo opressor de Roma foi lançado fora. Esta foi a obra do Espírito de Deus, e a energia que realizou a Reforma foi inteiramente dEle. Um resultado dessa grande revolução, e o que a caracterizou, foi a transferência de poder e importância da igreja para o indivíduo. A ideia da igreja como a dispensadora de bênçãos foi rejeitada, e cada homem foi convocado a ler a Bíblia por si mesmo, examinar por si mesmo, crer por si mesmo, ser justificado por si mesmo, servir a Deus por si mesmo, assim como ele deve responder por si mesmo. Este foi o pensamento recém-nascido da Reforma — sempre correto, mas que havia sido negado por muito tempo pela usurpação do romanismo — a bênção individual primeiro, a formação da igreja depois, esta foi a nova ordem das coisas; mas, infelizmente, a verdadeira ideia da igreja de Deus foi então completamente perdida, e não foi recuperada até o século XIX, como veremos mais adiante, se o Senhor permitir.

Até então, os reformadores estavam certos. O Senhor edifica apenas pedras vivas sobre a fundação da rocha; mas, ao perder de vista o lugar e a obra próprios do Senhor na assembleia por meio do Espírito Santo, os homens começaram a se unir e a edificar igrejas, assim chamadas, segundo seus próprios pensamentos. Uma grande variedade de igrejas ou sociedades religiosas rapidamente surgiu em muitas partes da Cristandade; mas cada país realizou sua própria ideia de como a igreja deveria ser formada e governada: alguns achavam que o poder da igreja deveria ser investido nas mãos do magistrado civil; outros achavam que a igreja deveria reter esse poder em si mesma; e essa diferença de opinião resultou nas corporações nacionais e nas inúmeras dissidências que ainda vemos ao nosso redor. Mas a mente de Cristo quanto ao caráter e à constituição de Sua igreja, tão amplamente ensinada nas epístolas, parece ter sido completamente ignorada pelos líderes da Reforma. A fé individual como o grande princípio salvador para a alma foi enfatizada em toda parte, graças ao Senhor; e as almas dos homens foram salvas, e Deus foi assim glorificado; mas, isso garantido, os homens começaram a se unir e criar igrejas para satisfazer suas próprias vontades. Nada é mais evidente para o estudante da história da igreja, com seu Novo Testamento à frente, do que esse doloroso fato.

Por exemplo, lemos em Efésios 4: "Há um só corpo e um só espírito", mas, segundo o protestantismo, deveríamos ler: "Há muitos corpos e um só espírito." Mas não pode haver mais de um corpo que seja de constituição divina. Além disso, lemos: "Procurando guardar a unidade do Espírito." Isso claramente significa a unidade formada pelo Espírito — o Espírito Santo sendo o poder formativo da igreja, que é o corpo de Cristo. Os cristãos são os indivíduos que o Espírito Santo agrupa formando uma perfeita unidade. Esta é a que devemos nos esforçar em "guardar", não em criar uma nova — devemos nos esforçar em manter, exibir e realizar na prática essa unidade já formada pelo Espírito. "Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também. Pois todos nós fomos batizados em um Espírito, formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito." (1 Coríntios 12:12-13).*

{*Veja este assunto tratado plenamente em dois comentários, sobre 1 Coríntios 12 e 14, por W. Kelly}

domingo, 25 de agosto de 2024

A Epístola à Igreja em Sardes - Parte 3

Achamos quase desnecessário acrescentar, depois do que foi dito, que os títulos "estrela" e "anjo" não dão sanção à ideia de clericalismo ou ministros nomeados por homens. O sistema que prevaleceu desde a Reforma deixa uma porta larga para homens até mesmo não convertidos, desde que intelectuais. Mas como o sistema divino é diferente, como visto aqui! As "estrelas" têm um caráter de autoridade sob Cristo, e agem em Seu nome, que é o Cabeça do governo, e como "anjos" são representantes das igrejas, e as caracterizam aos olhos de Cristo. Que sublime imagem, podemos exclamar, de identificação moral com Cristo e com a igreja de Deus, esses títulos dão! E um mesmo homem era caracterizado por ambos. "As sete estrelas são os anjos das sete igrejas." Ele era a expressão de Cristo para a igreja em poder subordinado, e da igreja para Cristo em sua condição moral. Para ministros tão divinamente designados e divinamente qualificados, não poderia haver objeção em qualquer época ou em qualquer país. Por tais devemos nunca cessar de orar.

Agora que vimos, como cremos, a mente de Cristo quanto ao que Ele é em Si mesmo para Sua igreja em todas as eras e condições, estaremos mais aptos a compreender a posição das igrejas reformadas conforme prefiguradas pelo estado de coisas em Sardes.

A Epístola à Igreja em Sardes - Introdução

"E ao anjo da igreja que está em Sardes escreve: Isto diz o que tem os sete espíritos de Deus, e as sete estrelas: Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto. Sê vigilante, e confirma os restantes, que estavam para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus. Lembra-te, pois, do que tens recebido e ouvido, e guarda-o, e arrepende-te. E, se não vigiares, virei sobre ti como um ladrão, e não saberás a que hora sobre ti virei. Mas também tens em Sardes algumas poucas pessoas que não contaminaram suas vestes, e comigo andarão de branco; porquanto são dignas disso. O que vencer será vestido de vestes brancas, e de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida; e confessarei o seu nome diante de meu Pai e diante dos seus anjos. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." (Apocalipse 3:1-6)

Já vimos o estado geral e as atitudes do papado durante a Idade Média: agora devemos contemplar um período inteiramente novo na história da igreja e uma nova ordem de coisas como resultado da grande Reforma. Muitas das características morais dos períodos anteriores, sem dúvida, existem em Sardes, mas seu caráter é suficientemente distinto para marcá-lo como uma nova época na história eclesiástica e civil.

As quatro primeiras igrejas do Apocalipse, que já examinamos, descrevem o estado das coisas antes da Reforma; as últimas três representam o aspecto geral do corpo professante após os dias de Lutero. Mas devemos ter cuidado para distinguir entre aquela obra positiva do Espírito de Deus através dos reformadores e o formalismo sem vida que tão logo apareceu nas igrejas luteranas e reformadas, e que claramente corresponde à triste condição de Sardes. Mal haviam provado as bênçãos da libertação da opressão de Roma, quando caíram em um estado de servidão aos governos do mundo e, consequentemente, em um estado de morte espiritual. O Senhor Jesus faz uma referência tocante a esse estado de coisas em sua mensagem: "Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto." Esta é a condição do que é conhecido como Protestantismo após os dias dos primeiros reformadores. Os verdadeiros cristãos, é claro, não estão mortos, sua "vida está escondida com Cristo em Deus" (Cl 3:3), mas os sistemas nos quais se encontram, o Senhor declara aqui como sendo sem vitalidade. Um credo ortodoxo, aparência exterior de corretude, um nome de algo novo e cheio de vida, o espírito imundo do papado expulso, a casa varrida e adornada, caracterizam o Protestantismo; mas aquela terrível palavra dos lábios de Jesus — tu estás morto — carimba seu verdadeiro caráter como visto por Ele. Os diversos sistemas denominacionais do meio protestante e evangélico são descritos por aquela palavra fatal, "mortos" — a realidade viva se foi.

Mas um olhar para as diferentes partes da Epístola a Sardes nos permitirá compreender mais plenamente a avaliação do Senhor sobre os diversos sistemas protestantes que nos cercam.

sábado, 24 de agosto de 2024

O Protestantismo

Capítulo 36: Protestantismo: Alemanha (1526 d.C. - 1529 d.C.)

O Protesto dos Reformadores na Segunda Dieta de Espira, em 1529, marca uma época distinta na história da Reforma e da Igreja. Ao mesmo tempo, devemos lembrar que o Protestantismo não é uma novidade. A antiguidade da religião Católica Romana é uma das vãs ostentações de seus defensores. Dizem que o Papado é fruto da antiguidade, mas que o Protestantismo é filho de ontem — de Lutero e Calvino. O termo, podemos admitir, em sua acepção no século XVI, era uma novidade, mas não aquilo que ele representava. A verdade de Deus e sua autoridade sobre a consciência eram o que os Protestantes defendiam. Nesse sentido, o Protestantismo é tão antigo quanto o Cristianismo; e sempre existiu, embora sufocado, desde o tempo de Constantino até o século XVI, em meio a uma massa de erros e superstições sempre crescentes.

Durante esse período sombrio e desolador, encontramos muitos Protestantes. O despotismo e o erro reinando, a fidelidade e a verdade de Deus existindo, necessariamente trouxeram à tona os princípios do Protestantismo. Além dos Paulicianos, Nestorianos e Armênios no Oriente, temos nossos conhecidos amigos no Ocidente — os Valdenses, os Albigenses, os Wyclifitas e os Boêmios. Havia outros distinguidos por várias designações, como os Cátaros, Leonistas, etc.; mas aqueles eram os quatro grandes ramos do nobre tronco de testemunhas de Cristo e Seu evangelho; e, embora chamados por diferentes nomes, tinham uma origem comum e uma fé comum.

O Protestantismo com o qual agora tratamos, historicamente, data da Segunda Dieta de Espira, em 1529. Então ele deu seu primeiro suspiro. Mas em pouco tempo ele foi incorporado à constituição nacional da Alemanha, e estava armado em defesa, se necessário, da religião e da liberdade. Esse foi o Protestantismo em sua forma política, que, infelizmente, não refletia o Cristianismo, ou a Igreja de Deus, o corpo de Cristo.

Mas aqui devemos pausar por um momento e meditar sobre o discurso do Senhor à igreja em Sardes. O início da parte protestante da Cristandade é o momento certo para introduzi-lo. Lá temos a avaliação, não da caneta parcial ou preconceituosa do historiador, mas do próprio Senhor. Isso é profundamente solene, mas inefavelmente precioso. Que Ele nos conceda ver Sua própria mente sobre esse grande assunto!


sexta-feira, 23 de agosto de 2024

O Protesto

As discussões que surgiram sobre este assunto foram longas e muitas vezes fervorosas. Os católicos contavam com os mais hábeis e astutos debatedores, como o célebre Eck. Ao frequentemente repetido clamor, "A execução do edito de Worms", foi agora acrescentado, "A abrogação do édito de Spira". Mas os reformadores se mantiveram firmes e unidos, e raciocinaram com grande justiça. Finalmente, Fernando, que presidia a dieta, exigiu com um tom imperioso a submissão incondicional dos príncipes alemães à decisão da assembleia. Os reformadores protestaram. Isso ocorreu no dia 19 de abril de 1529. Como esse ato simples foi desconsiderado pelos papistas, os reformadores apresentaram no dia seguinte, por escrito, um segundo e mais elaborado protesto, apelando ao Imperador e a um futuro concílio. Foi assim que os reformadores receberam a designação de Protestantes. Esta é a origem do termo que hoje é utilizado para denotar todas aquelas numerosas igrejas e seitas que protestam, por princípio, contra as doutrinas, ritos e cerimônias da Igreja de Roma.

Este nobre manifesto, que sem dúvida perplexou o partido papal por sua firmeza e justiça, foi assinado por João, Eleitor da Saxônia, Filipe, Landgrave de Hesse, Jorge de Brandenburgo, Ernesto e Francisco de Lunenberg, Wolffgang de Anhalt e pelos deputados de quatorze cidades imperiais. Mas não aparecem as assinaturas de teólogos, doutores em divindade, nem de professores universitários. A grande Reforma, ou revolução religiosa, passou para as mãos dos poderes deste mundo. Não havia Lutero em Espira como havia em Worms. Ainda assim, ele e seus amigos estavam trabalhando em seus estudos, púlpitos e universidades para o progresso pacífico da palavra de Deus e os triunfos do evangelho de Sua graça. E o Senhor sabe como estimar e recompensar os trabalhos de Seus servos. "Portanto, nada julgueis antes de tempo, até que o Senhor venha, o qual também trará à luz as coisas ocultas das trevas, e manifestará os desígnios dos corações; e então cada um receberá de Deus o louvor." (1 Coríntios 4:5)

Aqui o cristianismo papal recebe sua ferida mortal. O reinado de Jezabel, em sua autoridade absoluta, é agora julgado como uma tirania intolerável. A mente teutônica, que nunca se desfez completamente de sua independência nativa, agora se despede do jugo opressor de Roma. Historicamente, o período de Tiatira encerra-se aqui. O período protestante começa, como prefigurado nas epístolas a Sardes, Filadélfia e Laodiceia, embora todos os quatro se estendam até o fim. Então, cada verdadeiro cristão em todos os diferentes sistemas na Cristandade será arrebatado para encontrar o Senhor nos ares, e no devido tempo virá com Ele em plena glória manifesta, quando o julgamento divino será executado sobre uma amadurecida apostasia.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

O Progresso Geral da Reforma

O poderoso movimento que agora vivenciamos não conhecia limites nem fim. O despertar no império alemão, o reavivamento do evangelho e o crescente interesse pela reforma haviam afetado profundamente o estado geral da Europa. Suécia, Dinamarca, Holanda, Suíça, Bélgica, Itália, Espanha, França e as Ilhas Britânicas foram atraídas pelo fluxo da grande revolução religiosa. Logo, deixou de ser uma questão meramente local ou até mesmo nacional: tornou-se o grande e esmagador tema da época. Cada governo descobriu que a reforma fazia parte de seu esquema e política, quer quisesse, quer não, e que as constituições dos mais antigos reinos estavam sendo abaladas por essa nova disputa sobre religião.

Homens iam e vinham, levando sempre novas notícias das coisas maravilhosas que estavam acontecendo. Embarcações chegavam a todos os portos, descarregando secretamente pacotes de novas traduções, panfletos e sermões dos reformadores. O interesse tornou-se universal. Mas não era de se esperar que a velha igreja, respaldada pelo poder civil, permitisse que as novas opiniões crescessem em seu próprio seio sem uma luta a fim de esmagá-las. No entanto, homens de mente fervorosa, vendo que a reforma era necessária e incapazes de sufocar suas convicções, pregavam a Cristo corajosamente. Alguns corações verdadeiros e honestos foram encontrados, sob a capa monástica; homens que ousaram pregar a Cristo como o fim da lei para a justiça de todo aquele que crê — que Deus somente podia perdoar pecados através da fé no precioso sangue de Cristo. O clero, percebendo que tais doutrinas eram destrutivas de seu poder, de seus privilégios, de sua própria existência, levantou o grito de "Heresia! Heresia!" As excomunhões eclesiásticas foram seguidas por éditos reais; a perseguição foi travada contra os pregadores, as apreensões tornaram-se frequentes, a tortura foi aplicada, as chamas foram acesas, e a partir deste momento começam as emocionantes histórias dos mártires e do martírio protestante. Por um tempo, o fanatismo triunfa e os piedosos sofrem, mas o poder do Senhor e Sua verdade prevalecem poderosamente.

Mas, por ora, não nos aventuremos nessas águas turbulentas. Retornemos por um breve período à Alemanha e testemunhemos a ascensão do protestantismo, que deu uma nova direção à história espiritual da humanidade.

domingo, 2 de outubro de 2022

A Primeira Vez que Lutero Pegou em uma Bíblia

Em um estado de ansiedade trêmula sobre a salvação de sua alma, Lutero estava um dia procurando na biblioteca de Erfurt por algo novo, quando a mão de Deus o direcionou para uma Bíblia. Ele leu a página de rosto — era de fato a Bíblia Sagrada! Ele ficou muito empolgado e interessado enquanto virava rapidamente suas folhas. Ele tinha então vinte anos de idade e nunca tinha visto o precioso volume antes. Deixemos o leitor protestante notar isso -- ele foi criado por pais piedosos, viveu quatro anos em uma família cristã e nem mesmo tinha visto uma Bíblia! A mesma ignorância da Palavra de Deus prevalece nas comunidades católicas romanas até hoje. A Bíblia não faz parte da educação de um padre católico, e as pessoas são proibidas de lê-la. Dezenas de milhões estão agora em circulação, mas em um distrito estritamente católico romano seria difícil encontrar uma única cópia. Alguns extratos são usados no culto da igreja, e até mesmo católicos piedosos são levados a acreditar que esses extratos contêm a substância de toda a Bíblia. Tal é o fundamento estreito e precário sobre o qual sua fé é construída, e tal é o poder ofuscante e ruinoso desse temível sistema de trevas e idolatria. 

Mas também temos, como protestantes, que lembrar que a Bíblia não é seu próprio poder, ou seu próprio intérprete. Pois "qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus". Sem o ensino e o poder do Espírito Santo, por meio da fé em Cristo Jesus, não pode haver entendimento correto da palavra de Deus, nem verdadeira sujeição do coração à sua autoridade absoluta. Portanto, alguns dos axiomas protestantes, embora soem bem e de importância em contraste com o papado, são, no entanto, incorretos e enganosos, como é o caso, por exemplo, de: "A Bíblia, toda a Bíblia, e nada além da Bíblia". Isso é bem verdade quando se fala da Bíblia como padrão; mas se quer dizer que a Bíblia é seu próprio poder e intérprete, é falsa; pois o Espírito Santo seria assim praticamente excluído. "O direito de julgamento particular" também tem sido muito falado pelos protestantes; mas seus efeitos foram muito perniciosos. O orgulho do intelecto, a competência da razão humana e a insubmissão à vontade revelada de Deus são alguns dos maus frutos desse princípio fundamental do protestantismo; embora originalmente se destinasse a contrastar com a ostentada infalibilidade do sacerdócio romano e a mente escravizada dos leigos. 

Como pode um pecador perdido, já condenado, ter algum direito particular ou individual? Ele não tem nenhum direito a não ser um lugar entre os perdidos. Mas se Deus se agrada de falar com ele, ele é obrigado a ouvir --- apenas a ouvir; ele não tem o direito de raciocinar sobre o que Deus pode ter prazer em dizer; ele não pode ter opinião própria sobre as coisas divinas. As pessoas realmente não acreditam que estão perdidas; elas acreditam que têm pecados – que são culpadas; mas elas não acreditam que em seu estado atual estejam "já condenadas". A maioria das pessoas não sabe que está perdida, nem que está salva; então elas falam de seus direitos como pessoas livres. Mas alguns podem perguntar: "Qual é então a utilidade de nossa razão se não a exercermos?" Ler, pesquisar e aprender a mente de Deus a partir de Sua Palavra é certamente o mais alto exercício da mente humana e o mais rico privilégio. Mas quanto ao estudo da Bíblia, há algumas considerações, que veremos na seção seguinte. 

domingo, 18 de setembro de 2022

A Situação da Igreja no Início do Século XVI

Tal, como descrevemos na seção anterior, era o poder ilimitado do sacerdócio romano no início deste século. Nenhum homem era independente do padre. Ele era o senhor da consciência humana. Seu poder era absoluto tanto sobre o corpo quanto sobre a alma, sobre o tempo e a eternidade. Ninguém podia se dar ao luxo de incorrer em seu desagrado ou de cair sob sua censura. A excomunhão separava o homem, qualquer que fosse sua classe ou posição, da igreja, além de cujas fronteiras não havia possibilidade de salvação. 

Não é pouco notável que até este ponto em que estamos estudando a História da Igreja nenhum perigo parecia ameaçar esse sistema monstruoso e imponente de iniquidade. Do Vaticano até a menor congregação, a soberania e a tranquilidade da Igreja pareciam estar completamente asseguradas. As várias heresias e comoções que a perturbaram durante séculos foram suprimidas a fogo e espada, as queixas e petições de seus filhos mais fiéis foram rejeitadas com impunidade insolente; e as advertências de seus amigos mais sinceros foram negligenciadas ou desprezadas. Onde estavam agora os valdenses, os albigenses, os begardos, os lolardos, os boêmios e os vários sectários? Eles foram silenciados ou extintos pela administração papal. É verdade que houve muitos murmúrios particulares contra a injustiça, as fraudes, a violência e a tirania da corte de Roma; também contra os crimes, ignorância e licenciosidade de todo o seu sacerdócio; mas os pontífices se acostumaram a esses murmúrios e podiam ou conciliar com seus favores ou desafiar com suas censuras, conforme melhor convinha à sua política. 

Podemos imaginar a falsa mulher, segundo a linguagem do Apóstolo João, examinando com exultação os pilares e baluartes de sua força. "Estou assentada como rainha, e não sou viúva, e não verei o pranto." Ela não deu atenção à voz que havia dito: "Porque já os seus pecados se acumularam até ao céu, e Deus se lembrou das iniquidades dela". (Ap 18:7,5

O tempo de Deus havia chegado para pelo menos um cumprimento parcial desta profecia. O mandado de prisão foi proclamado. Justo quando pensava que tudo estava seguro e resolvido para sempre, o fim de sua dominação descontrolada estava próximo. Mas como isso ocorreria? Uma reforma da igreja em sua cabeça e membros havia sido o clamor geral por eras; mas todas essas exigências e reclamações ela desafiava. O que agora deveria ser feito? Será que algum anjo poderoso deveria descer do céu para derrubar o despotismo de Roma e quebrar o jugo do papado que há tanto tempo prendeu em grilhões os corpos e almas dos homens? Não! Tais meios não foram necessários e não foram utilizados, para que Deus seja glorificado. Naquilo que os soberanos mais poderosos com suas legiões armadas falharam completamente, Deus realizou plena e gloriosamente por meio de um desconhecido monge na Saxônia, sozinho. 

Este foi Martinho Lutero de Eisleben. Ele foi a voz de Deus que despertou a Europa para esta grande obra e chamou os trabalhadores para o campo. Mas se quisermos formar uma estimativa justa do principal instrumento de Deus nesta obra poderosa, e da graça que o qualificou, devemos olhar para o que é importante no início da vida do grande reformador. D'Aubigné, em seu amor por Lutero, fala dele como tendo experimentado em sua própria alma as diferentes fases da Reforma antes de serem realizadas no mundo, e exorta seu leitor a estudar sua vida antes de prosseguir para os eventos que mudaram o rosto da Cristandade. 

A Reforma na Alemanha

O domínio exclusivo da igreja latina (ou católica romana) estava chegando ao fim. Desde o pontificado de Gregório, o Grande, isto é, por quase mil anos, ela reinara suprema. Mas o teutão oprimido agora levantava o braço da rebelião contra a tirania do romano. A guerra terminou com uma grande secessão dos teutões, arrancando do papado uma grande parte de seus domínios, e com a Cristandade partindo-se em pedaços, como o navio em que Paulo navegou para Roma.

Foi nosso desejo apresentar ao leitor uma visão justa do verdadeiro caráter e dos caminhos da igreja de Roma durante o longo período de seu domínio, para que julgue por si mesmo se a história está de acordo com a interpretação que demos da epístola a Tiatira*. Nossas próprias convicções são agora mil vezes mais profundas no final do que eram no início da história, de que demos uma interpretação verdadeira e fizemos uma aplicação justa das palavras do Senhor à igreja em Tiatira. Temos apenas Ele para servir e Ele para agradar ao escrever esta história. Pois por ninguém mais teríamos perscrutado tantos fatos que ocorreram durante esses mil anos. A quantidade do que escrevemos não chega nem perto da quantidade do que deve ser lido para ficarmos satisfeitos quanto à confiabilidade do que está escrito. Além disso, grande parte da história papal é totalmente imprópria para nossas páginas, ou para chegar aos olhos de pessoas civilizadas, muito menos aos olhos do cristão. É melhor deixar seus adultérios e abominações na página que foi escrita em uma época mais rude, pois certamente serão consignados a um lugar peculiarmente escuro nas regiões do inferno.


Por quase trezentos anos, por meio de escolas, novas traduções, versões, prensas e a intolerância da igreja, o Senhor vinha preparando o caminho para o cumprimento de Seu propósito; e, feito isso, o instrumento mais débil foi suficiente para colocar todas essas frentes em plena ação. "Quando o trem é colocado corretamente nos trilhos, uma faísca acidental pode fazer a locomotiva andar." Efetuar grandes resultados por pequenos meios é o caminho da providência divina, para que o poder seja visto como sendo de Deus, e não do homem. Uma ocasião foi fornecida, e Lutero foi o instrumento preparado para colher a gloriosa colheita da grande Reforma. Mas muito trabalho foi feito no campo por muitos corações e mãos nobres que não tiveram o privilégio de colher seus frutos, pelo menos neste mundo. Estes podem ter sido os agentes, mas Lutero foi o instrumento.

Durante esses mil anos, estivemos principalmente envolvidos com o papado e as testemunhas de Cristo; agora veremos o papado e o protestantismo. Mas para que o leitor entenda corretamente a diferença entre os dois, consideraremos cuidadosamente o que era o papado à época do aparecimento de Lutero.

domingo, 27 de setembro de 2020

Reflexões Sobre os Escolásticos

É o bastante – sim, dizemos o bastante – sobre os doutores escolásticos e os filósofos em divindade para o nosso propósito atual. Percorrer vários e selecionar alguns como espécimes genuínos é um trabalho árido e cansativo. Mas eles constituem um certo elo na cadeia de eventos entre os séculos XII e XVI que tem sua importância; e o leitor verá o que significa o termo geral de "os escolásticos" nesse período de nossa história. Uma lição salutar que podemos aprender, pelo menos com os exemplos que temos diante de nós, é sobre a total escuridão e perplexidade da mente, por maior que seja o aprendizado e estudo, quando a Palavra de Deus, em sua divina simplicidade, não é conhecida nem crida. Um único texto, tal como "O justo viverá pela fé", quando usado por Deus nas mãos de Lutero, foi suficiente para limpar as trevas da Idade Média, enquanto os dezessete volumes in-fólio de Tomás de Aquino e todos os outros volumes de todos os grandes escolásticos apenas aprofundaram a escuridão da ignorância e perplexidade quanto ao conhecimento de Deus e o caminho da salvação. O maior desenvolvimento das faculdades naturais da mente humana não conduz nenhum pecador culpado à cruz de Cristo – ao precioso sangue que, somente ele, purifica de todo pecado. O inimigo das almas, aproveitando a crescente fama da filosofia aristotélica, seduziu os melhores dentre os doutores a acreditarem que a obra mais importante em que poderiam se dedicar era a reconciliação do ensino de Cristo com os decretos do filósofo grego, de forma que os estudiosos não pensassem mais deste último do que do primeiro. Tal era o trabalho miserável dos melhores escolásticos da época; mas sem dúvida muitas das mentes mais simples, que não foram cegadas pelas sutilezas da lógica, encontraram o caminho da verdade e da salvação em meio às trevas, embora muito perplexas e desnorteadas.

A igreja de Cristo mal era visível na Europa nessa época, com exceção das igrejas dos vales; ali a verdadeira luz continuou a arder, e milhares encontraram "o caminho mais excelente", apesar de toda a união dos poderes da Terra, tanto seculares como eclesiásticos, para extingui-la. Mas ali estava o verdadeiro edifício de Deus, e as portas do inferno nunca poderiam prevalecer contra as obras de Suas mãos. Agora nos voltamos para renovar nosso conhecimento sobre os valdenses e outros protestantes daquela época.

domingo, 1 de dezembro de 2019

A Dispersão dos Seguidores de Valdo

Quando Valdo fugiu, seus discípulos o seguiram. A dispersão aconteceu de modo similar à que surgiu por ocasião da perseguição de Estêvão. Os efeitos também foram similares: o bendito evangelho acabou sendo ainda mais amplamente disseminado por toda a Europa. O maior poder deles era a posse das Escrituras Sagradas em sua própria língua. Eles liam os Evangelhos; eles pregavam e oravam na língua popular. Muitos deles, sem dúvida, chegaram aos vales de Piemonte e às cidades de Languedoque. Uma nova tradução da Bíblia era, sem dúvida, uma rica adesão aos tesouros espirituais daquele interessante povo.

A cena estava então pronta para o papa Inocêncio III: as ameaças papais, tendo sido transmitidas por sua vigorosa mão, foram executadas com uma mente disposta e implacável. Ele, que tinha humilhado os grandes reis da Alemanha, França e Inglaterra, e que tinha recebido submissão implícita de quase todas as partes da Cristandade, ainda era renegado como o supremo chefe da igreja pelos valdenses, onde quer que fossem achados. Dificilmente um espírito como o de Inocêncio continuaria a suportar com calma essa resistência a sua vangloriada supremacia universal. Mas qual era o crime deles? Onde eles poderiam ser encontrados? E como eles deveriam ser tratados?

1. Eles tinham a mais alta reputação em todos os lugares, até mesmo por parte de seus piores inimigos, por sua modéstia, simplicidade, honestidade, castidade e temperança. "Em nenhum caso", diz uma alta autoridade que não era muito favorável aos que ele chamava de anti-sacerdotalistas, "a moral e os costumes de Pedro Valdo e dos Cristão Bíblicos Alpinos podiam ser arranhados por seus mais amargos inimigos". O "pecado mortal" deles vinha do apelo que faziam às Escrituras, e somente às Escrituras, em todos os assuntos de fé e adoração. Eles rejeitavam o vasto sistema da tradição-religião mantido pela igreja de Roma. Tanto em vida quanto em doutrina eles eram nobres testemunhas de Cristo e da simplicidade do evangelho; mas isso acabava se constituindo como um poderoso protesto contra a riqueza, o poder e as superstições da religião dominante. Eles rejeitavam os quase inumeráveis sacramentos de Roma, e mantinham a posição de que havia só dois deles no Novo Testamento -- o batismo e a ceia do Senhor. Em geral, podemos dizer que eles anteciparam e defenderam as mesmas doutrinas que, após um lapso de três séculos, seriam promulgados pelos reformadores da Alemanha e da Inglaterra, e que constituem o credo dos protestantes na atualidade.

2. O progresso dos "homens pobres de Lyon", após a perseguição deles, parece ter sido rápido e amplamente estendido. Dizem que eles se espalharam pelo sul da França, para a Lombardia e Aragon. "Em Lombardia e Provença", diz Robertson, "os valdenses tinham mais escolas do que os católicos; seus pregadores disputavam e ensinavam publicamente, enquanto o número e a importância dos patronos que os protegiam fizeram com que fosse perigoso interferir no trabalho deles. Na Alemanha, eles tinham quarenta e uma escolas na diocese de Passau, e eram numerosos nas dioceses de Metz e Toul. Da Inglaterra ao sul da Itália, desde Helesponto até o Ebro, suas opiniões eram amplamente difundidas."*

{* J.C. Robertson, vol. 3, pp. 179-202. Waddington, vol. 2, p. 187. History of France de Sir. J. Stephen, vol. 1, p. 218.}

3. Tal era o estado de coisas quando o papa Inocente III subiu ao trono papal. Com pressentimentos ansiosos e um olho de águia, ele observava esse espírito de independência religiosa, mas a questão era como ele poderia efetivamente esmagá-lo. Além disso, nessa época, como o leitor se lembrará, suas mãos estavam cheias. Ele estivera buscando destruir o equilíbrio de poder na Alemanha e na Itália, contendia com os reis da França e da Inglaterra, dirigia a marcha dos cruzados, e derrubava, por meio deles, o império grego em Constantinopla; mesmo assim ele ficou observando, e se determinou a punir cada dissidência dos dogmas da igreja de Roma e cada exercício da faculdade de pensamento de seus súditos religiosos. Havia altos rumores, por volta dessa época, de que os dois principais focos de desafeto em relação a Roma vinham dos vales de Piemonte e do sul da França. Os cristãos piemonteses floresceram na obscuridade, enquanto os albigenses se tornaram mais notórios, assim como mais perigosos, por causa da proteção que conseguiram nas ricas cidades de Languedoque. Raimundo VI, conde de Toulouse, não apenas favorecia aqueles que eram do credo valdense, considerando-os seus melhores súditos, como também os empregava em sua família, embora declaradamente fosse católico romano. O conde de Foix casou-se com uma valdense e, de suas duas irmãs, uma dizia ser valdense, e a outra catarista, ou puritana.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

A Parábola do Joio

"Mateus 13:24,25. 'Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se' - isso é exatamente no que se tornou a profissão cristã. Há duas coisas necessárias para a invasão do mal entre os cristãos. A primeira é falta de vigilância dos próprios cristãos. Eles se tornam descuidados, dormem, e o inimigo vem e semeia joio. Isto começou a acontecer logo no início da história da Cristandade. Encontramos essas sementes mencionadas até no livro de Atos dos Apóstolos, e cada vez mais nas Epístolas. A Primeira Epístola aos Tessalonicenses é a primeira que o apóstolo Paulo escreveu, e a segunda foi escrita pouco tempo depois. E nesta ele já fala que o mistério da iniquidade ja operava, e que se seguiriam outras coisas, como a apostasia e o homem do pecado, e que, quando a impiedade fosse plenamente manifesta (e não como opera agora, em segredo), então o Senhor colocaria um fim no iníquo e em todos os envolvidos com ele. O mistério da iniquidade parece ser semelhante ao joio mencionado aqui. Algum tempo depois, 'quando a erva cresceu e frutificou', quando o cristianismo começou a avançar rapidamente sobre a Terra, 'então apareceu também o joio'. Mas é evidente que o joio foi semeado quase imediatamente depois da boa semente. Sempre que Deus realiza uma obra, Satanás fica no pé. Quando o homem foi feito, ele deu ouvidos à serpente e caiu. Quando Deus deu a lei, ela foi quebrada antes mesmo de ser entregue nas mãos de Israel. Assim é sempre a história da natureza humana. "

"Assim o mal está feito no campo, e nunca reparado. O joio não deve ser retirado do campo no tempo presente: não há juízo para ele por enquanto. Isso significa que deve haver joio na igreja? Se o reino dos céus fosse a mesma coisa que a igreja não deveria haver nenhum tipo de disciplina: deveríamos permitir a imundície da carne ou do espírito ali. Eis a importância de saber distinguir a igreja do reino. O Senhor proíbe que o joio seja tirado do reino dos céus: 'Deixai crescer ambos juntos até à ceifa' (Mateus 13:30), isto é, até que o Senhor venha em juízo. Se o reino dos céus fosse a mesma coisa que a igreja, repito, então implicaria em nada menos que isso: que nenhum mal, seja ele flagrante ou simples, deveria ser colocado para fora da igreja {*no sentido de assembleia local em seu caráter terreno, uma vez que não é possível perder a salvação e ser tirado do corpo de Cristo. Ver http://aguapelapalavra.blogspot.com/2013/01/a-posicao-e-o-estado-do-crente.html} até o dia do juízo. Vemos, então, a importância da fazer essas distinções que tantos desprezam. Elas são totalmente importantes para a verdade e santidade. Não  existe nem mesmo uma única expressão  na Palavra de Deus que possamos ignorar.

"Qual é, então, o significado dessa parábola? Não tem nada a ver com a questão da comunhão da igreja. É do 'reino dos céus' que é falado aqui - o cenário da confissão cristã, seja verdadeira ou falsa. Assim gregos, coptas, nestorianos, católicos romanos, assim como evangélicos protestantes fazem parte do reino dos céus; não apenas os crentes, mas também as más pessoas que professam o nome de Cristo. Um homem que não é judeu nem pagão, e que professa exteriormente o nome de Cristo, está no reino dos céus. Ele pode até ser muito imoral e herege, mas não deve ser tirado do reino dos céus. Mas, seria correto recebê-lo à mesa do Senhor? Deus o proíbe! Se uma pessoa caída em pecado aberto estiver na assembleia, deve ser colocado para fora dela, mas não será colocada para fora do reino dos céus. De fato, isto só poderia ser feito tirando sua vida, arrancando o joio pela raiz. E é nisto que o cristianismo mundano caiu, em um espaço de tempo não muito longo após os apóstolos partirem da Terra. Punições temporais foram introduzidas para disciplina: leis foram criadas com o propósito de entregar o refratário para o poder civil. Se não honrassem a assim chamada igreja, aos desobedientes não seria permitido viver. Deste modo, o mesmo mal contra o qual o Senhor estivera protegendo seus discípulos continuou; o Imperador Constantino usou a espada para reprimir os ofensores da "igreja". Ele e seus sucessores introduziram penas temporais para lidar com o joio, tentando arrancá-los. Tome a "igreja" de Roma, onde vemos tamanha confusão entre a igreja e o reino dos céus: eles clamavam que, se um homem for herege, deveria ser entregue às cortes do mundo para ser queimado. Eles também nunca confessam ou corrigem o erro, pois fingem ser infalíveis. Supondo que as vítimas fossem realmente joio, isto seria tirá-los do reino. Se você arranca o joio do campo, você o mata. Podem haver homens lá fora profanando o nome de Deus, mas devemos deixar que Deus lide com eles."

"Isso não anula a responsabilidade cristã referente àqueles que estão à mesa do Senhor. Você encontrará instruções sobre tudo isso no que foi escrito sobre a igreja. 'O campo é o mundo', a igreja engloba apenas aqueles que acredita-se serem membros do corpo de Cristo. Tomemos 1 Coríntios, onde temos o Espírito Santo mostrando a verdadeira natureza da disciplina eclesiástica. Suponhamos que haja cristão professos vivendo na prática do pecado; tais pessoas não devem ser consideradas, enquanto continuarem no pecado, como membros do corpo de Cristo. Um verdadeiro santo pode cair em pecado aberto, mas a igreja, sabendo disto, é responsável por intervir com o propósito de expressar o juízo de Deus sobre o pecado. Se deliberadamente permitissem tais pessoas a estar à mesa do Senhor, estariam efetivamente fazendo do Senhor cúmplice do pecado. A questão não é se a pessoa é convertida ou não. Se não convertidos, os homens não têm nada a ver com a igreja, e se convertidos, o pecado não deve ser ignorado. O culpado não deve ser tirado do reino dos céus, mas deve ser colocados para fora da assembleia (igreja local). Assim, o ensinamento da palavra de Deus é muito clara sobre essas duas verdades. É errado usar de punições do mundo para lidar com um hipócrita, mesmo que ele seja detectado. Devemos procurar o bem de sua alma, mas isso não é motivo para puni-lo. No entanto, se um cristão está em pecado, a igreja não deve suportá-lo, apesar de ser exortada a ser paciente no juízo. Mas devemos deixar os não convertidos para serem julgados pelo Senhor em sua vinda. "

"Este é o ensinamento da parábola do joio, que fornece uma visão muito solene da Cristandade. Assim como o Filho do homem semeou a boa semente, Seu inimigo semeou a má, que cresceu junto com o resto, e este mal não pode ser arrancado no momento presente. Existe uma solução para o mal que entra na igreja, mas não ainda para o mal no mundo."

(Trecho retirado dos Estudos sobre o  Evangelho de Mateus,  de William Kelly)

É perfeitamente claro, tanto das Escrituras quando da história, que o grande erro no qual caiu o corpo professante é a confusão quanto a essas duas coisas - o joio e o trigo; ou, de maneira prática, aqueles que foram admitidos, pela administração do batismo, a possuir todos os privilégios oficiais e temporais da igreja professa com aqueles que realmente se converteram e foram ensinados por Deus. Mas a vasta diferença entre o que podemos chamar de sistema sacramental e sistema vital deve ser claramente entendida e cuidadosamente distinguida, se quisermos estudar a história da igreja corretamente.

Outro erro, igualmente sério, segue como consequência. O grande e professo corpo se tornou, aos olhos e na linguagem dos homens, a "igreja". Homens piedosos foram atraídos por essa armadilha, de modo que a distinção entre a igreja e o reino foi, muito cedo, perdida de vista. Todos os lugares e privilégios mais sagrados da igreja professa foram, então, compartilhados tanto por pessoas piedosas quanto por ímpios. A Reforma falhou completamente em limpar a igreja dessa triste mistura, que tem sido transmitida a nós por sistemas como os Anglicanos, Luteranos e Presbiterianos, como fica claro pela forma do batismo. Em nossos dias, o sistema sacramental prevalece em um nível alarmante, e cresce rapidamente. O real e o formal, o vivo e o morto, são indistinguíveis nas várias formas do protestantismo. Infelizmente, e como isso é sério, há muitos na igreja professa - no reino dos céus - que nunca entrarão no Céu propriamente dito. Aqui encontramos tanto joio como trigo, servos maus e fiéis, virgens néscias e sábias. Embora todos os que foram batizados são contados no reino dos céus, apenas aqueles que forem vivificados e selados com o Espírito Santo pertencem à igreja de Deus.

Mas há ainda outra coisa ligada à igreja professa que exige um breve estudo aqui. É o princípio divino do governo na igreja, sobre o qual falaremos no próximo capítulo.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Um Resumo das Sete Igrejas

  • Éfeso: Em Éfeso o Senhor detecta a raiz de todo o declínio. "Deixaste teu primeiro amor". Ela é ameaçada a ter seu castiçal removido a menos que se arrependa. Período: da era apostólica até o final do segundo século.
  • Esmirna: A mensagem a Éfeso é geral, mas para Esmirna é específica. E, apesar de aplicada àquela assembleia naquele tempo, ela prefigura, de forma muito marcante, as repetidas perseguições pela qual a igreja passou sob os imperadores pagãos. No entanto, Deus pode ter usado o poder do mundo para deter o progresso do mal dentro da igreja. Período: do segundo século até Constantino.
  • Pérgamo: Aqui temos o estabelecimento do Cristianismo por Constantino como a religião do Estado. Em vez de perseguir os cristãos, ele os patrocina. A partir daí a queda da igreja avança rapidamente. Sua aliança profana com o mundo resultou em sua mais triste e profunda queda. Foi então que ela perdeu o verdadeiro sentido de sua relação com Cristo no Céu, e de seu caráter como peregrina e estrangeira na Terra. Período: do começo do quarto século até o sétimo século, quando o papado foi estabelecido*.
  • Tiatira: Em Tiatira vemos o papado da idade média, em semelhança à Jezabel, praticando todo o tipo de maldade, e perseguindo os santos de Deus, sob o disfarce de zelo religioso. No entanto, havia um remanescente temente a Deus em Tiatira, a quem o Senhor conforta com a brilhante esperança de Sua vinda, e com a promessa de poder sobre as ações, quando o próprio Senhor reinará. Mas a palavra de exortação ao remanescente é: "Mas o que tendes, retende-o até que eu venha" (Apocalipse 2:25). Período: do estabelecimento do papado até a vinda do Senhor. Este período vai até o fim, mas é caracterizado pela idade das trevas (idade média).
  • Sardes: Aqui vemos a parte Protestante da Cristandade que surgiu após a grande Reforma. As características falhas do papado desaparecem, mas o novo sistema não tem vida em si mesmo. "Tens nome de que vives, e estás morto" (Apocalipse 3:1). Mas há, ainda, verdadeiros santos dentro desses sistemas sem vida, e Cristo conhece a todos. "Mas também tens em Sardes algumas pessoas que não contaminaram suas vestes, e comigo andarão de branco; porquanto são dignas disso" (Apocalipse 3:4). Período: do século XVI até hoje. Período marcado pelo início do Protestantismo após a Reforma.
  • Filadélfia: A igreja da Filadélfia apresenta um remanescente fraco, porém fiel à palavra e ao nome do Senhor Jesus. O que os caracterizava era o fato de guardarem a palavra da paciência de Cristo, e de não negarem Seu nome. A condição deles não era marcada por qualquer exibição de poder, nem de coisa alguma grande externamente, mas de uma próxima, íntima e pessoal comunhão com o Senhor. Ele está no meio deles como o Santo e o Verdadeiro, e é representado como sendo o dono da casa. Ele possui "a chave de Davi". Os tesouros da palavra profética estão disponíveis para aqueles que estão dentro. Eles estão também desfrutando de Sua paciência, e na expectativa de Sua vinda. "Como guardaste a palavra da minha paciência, também eu te guardarei da hora da tentação que há de vir sobre todo o mundo, para tentar os que habitam na terra." Período: especialmente a partir da primeira parte do século XIX.
  • Laodiceia: Em Laodiceia temos mornidão - indiferença, latitudinarismo** ou ecumenismo - mas com altas pretensões, um espírito arrogante, e grande auto-suficiência. Este é o último estado daquela que leva o nome de Cristo sobre a Terra. Mas, que lástima! Isso é intolerável para Ele. Sua condenação final é chegada. Tendo separado, para Si mesmo, cada verdadeiro crente das corrupções da Cristantade, o Senhor os vomita de Sua boca. Aquilo que deveria ter sido doce a Seu paladar se tornou enjoativo, e é lançado fora para sempre. Período: começando quase em paralelo ao período de Filadélfia, mas especialmente próximo à cena final. Está ativa no período em que vivemos agora.
Tendo assim tomado uma visão geral das sete igrejas, devemos agora nos esforçar, com a ajuda do Senhor, a traçar brevemente estes diferentes períodos da história da igreja. Nosso propósito é examinar mais detalhadamente cada uma das sete epístolas enquanto avançamos com nosso estudo para que possamos verificar, à luz da Palavra, os diferentes períodos por elas referidos, e o quanto os fatos da história da igreja ilustram a história apresentada nas Escrituras nesses dois capítulos. Que o Senhor possa nos guiar, para o refrigério e bênção de Seus queridos.

(* O título "Papa" foi primeiramente adotado por Higino no ano de 139, e o Papa Bonifácio III induziu Focas, Imperador do Leste, a concedê-lo ao prelado de Roma em 606. Ainda com a conivência de Focas, a supremacia do papa sobre a igreja cristã foi estabelecida - Dicionário de Dados de Haydn)
(** Nota do tradutor: latitudinarismo é uma seita inglesa que sustenta a máxima tolerância religiosa e a doutrina de que todos os homens se salvarão. Similar ao universalismo}

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