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domingo, 9 de outubro de 2022

Lutero – Um Sacerdote e Professor

Ele passou três anos agitados no claustro de Erfurt. Mas para ele esses anos não foram perdidos. O cultivo geral de sua mente, a disciplina de sua alma, seu estudo do hebraico e do grego: eram muitos ramos da educação necessária para sua futura carreira no serviço do Senhor. Além disso, foi o lugar de seu nascimento espiritual e o lugar onde ele ouviu pela primeira vez sobre a justificação pela fé – aquela doutrina divina sobre a qual grande parte de seu trabalho subsequente foi construído. 

No ano de 1507 foi ordenado padre, cerimónia em que o seu pai estava presente, embora ainda insatisfeito com o curso de vida do filho. Lutero tinha então recebido poder do bispo para oferecer sacrifícios pelos vivos e pelos mortos, e para converter, murmurando algumas palavras, o pão sem fermento no “verdadeiro corpo e sangue do Senhor”. Lutero submeteu-se e aceitou essas pretensões papistas, embora contra suas convicções, e com medo e tremor, mas sua alma nunca chegou a se recuperar completamente dos efeitos dessa ordenança blasfema. Uma cegueira de juízo quanto à simplicidade escriturística da Ceia do Senhor se estabeleceu em sua mente. Ele foi capacitado, pela graça de Deus, a se livrar e denunciar muitas das superstições de Roma, mas nunca totalmente de seu ápice: a transubstanciação. 

Staupitz, o fiel amigo e patrono de Lutero, colocou-o, aos vinte e cinco anos de idade, em uma posição adequada para a exibição de sua mente poderosa e ativa, e para o posterior desenvolvimento de seu caráter. Ele foi convidado pelo príncipe-eleitor Frederico*, por sugestão do vigário-geral, a ocupar uma cadeira de filosofia na universidade que tinha fundado. Assim, mudou-se para Wittemberg no ano de 1508. Mas, embora chamado para ser professor, não deixou de ser monge; ele se hospedou em uma cela no convento agostiniano. Os assuntos sobre os quais ele foi designado a lecionar foram a física e a dialética de Aristóteles. Este era um emprego desagradável para alguém que estava faminto e sedento pela Palavra de Deus. Nem a ciência física nem a filosofia moral se adequavam ao espírito de sua mente. Mas, novamente, podemos dizer, era parte de sua educação necessária. Aquele que passou pelo claustro deve agora ocupar por um tempo a cadeira de filosofia escolástica, para que possa se tornar mais apto a expor os males e combater os erros de ambos os sistemas, e assim emancipar as mentes dos homens de sua influência. 

{* Eleitores ou príncipes-eleitores (em alemão é Kurfürst, plural Kurfürsten) foram os membros do colégio eleitoral do Sacro Império Romano-Germânico, tendo desde o século XIII, a função de eleger o Rei dos Romanos, ou, a partir de meados do século XVI em diante, diretamente o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Pr%C3%ADncipe-eleitor } 

Nesse meio tempo, embora atraísse os jovens de Wittemberg pela força e estilo de suas palestras, dedicava-se zelosamente ao estudo do grego e do hebraico. Seu desejo era beber na fonte, e Aquele que viu o grande desejo de seu coração e o trabalho de sua vida lhe abriu o caminho. Poucos meses depois de sua chegada à universidade, obteve o grau de Bacharel em Divindade, que o habilitava a dar palestras sobre teologia ou sobre a Bíblia. Ele agora se sentia em sua esfera adequada e determinado a comunicar apenas o que aprendeu da Palavra de Deus. Seus primeiros discursos foram sobre os Salmos, e então ele passou para a Epístola de Paulo aos Romanos. 

Suas preciosas meditações sobre essas porções em sua cela silenciosa, tanto em Erfurt quanto em Wittemberg, deram um caráter totalmente novo às suas palestras. Ele falava, não apenas como um estudante eloquente, mas como um cristão que sentia o poder das grandes verdades que ensinava. Quando ele alcançou, em suas exposições, a última sentença de Romanos 1:17, “o justo viverá pela fé”, uma luz, podemos dizer, além do brilho do sol, encheu toda a sua alma. O Espírito de Deus revestiu as palavras de luz e poder ao entendimento e ao coração de Lutero. A grande doutrina da justificação pela fé ele recebeu em seu coração como vinda da voz de Deus. Ele agora via que a vida eterna deveria ser obtida não pela penitência, mas pela fé. Toda a história da Reforma alemã está ligada a estas poucas palavras. À luz delas, ele explicou as escrituras do Antigo e do Novo Testamento; por sua verdade, expôs as falsidades do papado, emocionou o coração da Europa, pôs fim ao reino da impostura e realizou a grande Reforma. Sozinho ele ficou em pé diante de toda autoridade – diante de todo o mundo – na verdade da Palavra de Deus: “o justo viverá pela fé”. A palavra de Deus é verdadeira, o papado é uma mentira; um deve cair, o outro deve triunfar. A verdade é saúde para a alma, a mentira é um veneno mortal. Esses princípios de justiça eterna estavam agora firmemente fixados no coração de Lutero pelo Espírito de Deus; e, por mais simples que pareçam, ele foi capacitado, pela fé na Palavra de Deus, a triunfar sobre papas, bispos, clérigos, reis e imperadores, levantando a bandeira da salvação pela fé no Senhor Jesus Cristo, sem obras de lei. 

A grande obra estava agora iniciada, mas o obreiro ainda tinha algumas lições a aprender.  

domingo, 2 de outubro de 2022

Lutero entra para a Universidade de Erfurt

No ano de 1501, Lutero chegou à Universidade de Erfurt, então a mais ilustre da Alemanha. Ele havia chegado aos dezoito anos e entrou com grande entusiasmo nos estudos da humanidade. "Meu pai", diz Lutero, "me manteve lá com muito amor e fidelidade, e me sustentou com o suor de seu rosto". Um de seus biógrafos, moralizando sobre este registro agradecido do filho, observa: "E certamente todos os volumes da história da humanidade não contêm nenhum registro do trabalho braçal de um pai sendo recompensado por uma colheita tão gloriosa como aquela que surgiu da perseverante indústria do mineiro de Mansfeld. Cada gota que caiu daquela testa foi convertida, por uma providência vigilante, para a promoção de seus propósitos, e tornou-se o meio de fertilizar a mente que havia sido destinada a mudar os princípios predominantes do mundo cristão.”* 

 {*Waddington, vol. 1, pág. 34.} 

Há razões para acreditar que outros pensamentos além do cultivo de seu próprio intelecto estavam exercitando a mente de Lutero nesta época. A intervenção misericordiosa de Deus na bondade da família Cotta, e o que ele viu e aprendeu lá, causou uma impressão profunda e duradoura em sua alma. Ele se opunha fortemente ao estudo de Aristóteles, embora seu sistema tivesse grande reputação na faculdade e fosse representado como a melhor -- ou, melhor dizendo -- a única disciplina, por conta de sua razão. "Se Aristóteles não fosse um homem", costumava dizer, "eu não teria hesitado em considerá-lo um demônio"; tão grande era sua aversão à filosofia do grego erudito. As obras dos grandes escolásticos de épocas anteriores, como Escoto, Tomás de Aquino, Ockham e Boaventura, foram-lhe recomendadas como o único meio de piedade e erudição; mas estes eram pouco melhores que a lógica de Aristóteles se o objetivo fosse satisfazer a necessidade de uma consciência perturbada. No entanto, na sabedoria de Deus, era necessário que ele se familiarizasse com esses escritos para que pudesse ser mais capaz e ter um melhor terreno para expor a total inutilidade deles quanto ao serviço e adoração a Deus. Ele também estudou os melhores autores latinos e, tendo sido abençoado com grande poder de discernimento, perseverança e memória retentiva, fez rápido progresso em seus estudos, e cedo adquiriu a reputação de um especialista e hábil dialético. 

No ano de 1503 obteve seu primeiro grau acadêmico de Bacharel em Artes; e em 1505, obteve o de Doutor em Filosofia. Tendo alcançado considerável proficiência em vários ramos da literatura, ele começou, em obediência aos desejos de seu pai, a voltar sua atenção para o assunto da jurisprudência. Mas o Senhor tinha outra obra para Lutero: a graça já estava operando em seu coração. Naquela época, ele era dado a muita oração; e costumava dizer que "a oração é a melhor metade do estudo" - uma boa máxima para todos os estudantes cristãos.  

sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Lutero e a Piedosa Úrsula

Um dia, quando Lutero voltava de seus trabalhos, muito desapontado e desanimado, tendo cantado diante de três casas sucessivas sem ganhar nada, uma porta de repente se abriu; uma mulher apareceu na soleira, o convidou a entrar e aliviou suas necessidades. Esta era a bondosa Úrsula, esposa de Conrad Cotta. Ela já o havia notado antes e ficara impressionada com a doçura de sua voz e a seriedade de sua expressão. Conrad aprovou a benevolência de sua esposa e eles concordaram que ele deveria permanecer com eles como filho adotivo. Aliviado de seus cuidados temporais e desfrutando dos muitos privilégios de uma família cristã, a mente naturalmente bela de Lutero foi despertada para novas empatias, novas alegrias, novas esperanças -- para uma existência nova e feliz. Deus em misericórdia abriu os corações e o lar da boa Úrsula e seu marido para o jovem de espírito quebrado. Não precisamos acrescentar que o amor deles foi gravado no coração de Lutero e registrado no céu para ser recompensado para sempre. 

Aos seus estudos literários e científicos — que agora prosseguia com vigor renovado — acrescentou os encantos da música. Em agradecimento à sua mãe adotiva, aprendeu nas horas de recreio a tocar flauta e alaúde, e a cantar para ela, pois ela adorava apaixonadamente a melodia da sua voz como acompanhamento do alaúde. Assim começou aquele amor pela música que continuou até a velhice, e muitas vezes era um consolo para ele em tempos de angústia e tentação. Ele compôs melodias para muitas canções, e também letras, bem como as árias* de alguns hinos muito bonitos. 

{*  Ária: no sentido estrito, é qualquer composição musical escrita para um cantor solista, tendo quase o mesmo significado de canção. Fonte: Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%81ria)} 

Na atmosfera cordial da família Cotta, era natural que o caráter de Lutero sofresse uma grande mudança. Suas ansiedades foram removidas, sua timidez desapareceu, sua mente estava em paz, seus modos eram alegres e felizes, e seus notáveis talentos fizeram dele o favorito especial da escola franciscana. Assim ele passou quatro anos felizes. "Ele superou todos os seus companheiros", diz Melancthon, "em eloquência e composições tanto em prosa quanto em verso". 

Trebônio, superior do convento e diretor do colégio, sempre levantava o chapéu para saudar os alunos quando entrava na sala de aula. Seus colegas, não adotando o mesmo costume, manifestaram sua surpresa com sua condescendência. "Há entre esses meninos", respondeu ele, "alguns que Deus um dia fará burgomestres*, chanceleres, doutores e magistrados. Embora ainda não os vejas com os distintivos de sua dignidade, é certo que deves tratá-los com respeito." O jovem Lutero estava presente e, sem dúvida, muitas vezes se lembraria das palavras de seu estimado professor. 

{* Burgomestre: O burgomestre (em alemão, Bürgermeister) é o detentor do poder executivo no nível comunal em países como Alemanha, Áustria, Bélgica, Hungria, Luxemburgo, Países Baixos e Polônia, que equivale ao cargo de Presidente da Câmara em Portugal ou Prefeito no Brasil. Fonte: Wikipedia (https://pt.wikipedia.org/wiki/Burgomestre)} 

Encorajado por seus primeiros triunfos em Eisenach, e sentindo que seu curso de estudo estava garantido, ele ansiava por meios mais amplos de avanço intelectual e distinção. A educação universitária era seu grande desejo. O pai dele, cujas circunstâncias foram melhoradas, concordou com isso, mas desejava que ele estudasse a lei.  

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