domingo, 24 de junho de 2018

Tomás Becket e Henrique II

O nascimento e parentesco de Becket são desconhecidos. A obscuridade de sua origem foi provavelmente oculta pelos seus biógrafos. Mas alguns dizem que ele nasceu no ano de 1119. De acordo com Du Pin, ele iniciou seus estudos em Londres e os terminou em Paris, na melhor escola de francês normando.

Pouco depois de seu retorno à Inglaterra, ele foi fortemente recomendado a Teobaldo, arcebispo da Cantuária, que o empregou na administração de seus negócios. Becket estava então na estrada para o favoritismo. Teobaldo, que suspeitava que o jovem rei Henrique estivesse contaminado com a oposição às pretensões de Roma, estava ansioso por colocar perto de si alguém que pudesse contrariar tal perversidade. O sagaz primaz tinha discernido em seu arquidiácono (Becket), não apenas grandes habilidades para os negócios, como também os elementos de um clérigo elevado, determinado e devoto. Através de sua recomendação, Becket foi elevado à dignidade de chanceler. "Ele tornou-se, então, o segundo poder civil do reino, pois seu selo era necessário para assinar todos os mandatos reais. Nem era sem grande influência eclesiástica, pois nas mãos do chanceler estava a nomeação de todos os capelães reais e a custódia dos bispados, abadias e benefícios vagos". Mas, como Tomás Becket nos é ensinado na escola e nos livros de história inglesa* como um santo e um mártir, vamos olhar brevemente para ele, em primeiro lugar, como um homem do mundo.

{* O autor deste livro era inglês.}

A Introdução da Lei Canônica na Inglaterra

Após repetidas tentativas e falhas, da parte do papa, de introduzir um poder legatino* na Inglaterra, isso foi finalmente alcançado durante o reinado de Estêvão, em 1135 d.C. Era algo inteiramente novo no país e extremamente ousado da parte de Roma. Mas como isso diz respeito a uma época distinta e importante na história da igreja inglesa, devemos cuidadosamente tomar nota da mudança. E aqui, para assegurar precisão, citaremos algumas passagens de nosso historiador da área do direito inglês, Tomás Greenwood, livro 12, vol. 5.

{* N. do T.: poder legatino é um poder delegado a uma pessoa por outra, no caso, do papa a um legado. } 

"A publicação e adoção dos decretos isidorianos mudou a ordem e distribuição dos poderes eclesiásticos. Toda função de administração eclesiástica tornou-se investida no clero, ou, o que era a mesma coisa, no papa de Roma como seu chefe supremo. A autoridade do Estado em todos os assuntos dos eclesiásticos, mesmo que remotamente conectados com a vida e costumes, seculares e espirituais, foi veementemente denunciado e repelido: as posses deles foram pronunciados como sagrados e inalienáveis; seus deveres não se submetiam a qualquer censura além daquelas de seus oficiais superiores, e tornaram-se isentos da jurisdição ou punição secular; toda interferência por parte do príncipe ou pessoa secular na nomeação de bispos, sacerdotes ou incumbentes espirituais, foi declarada como sendo de natureza de simonia. Embora esses princípios da legislação da igreja tenham sido cumpridos em poucos exemplos de maneira plena e prática, eles foram recebidos sem contradição, e parcialmente adotados pelo clero da França, da Itália e da Alemanha. Na Normandia, uma completa separação entre a jurisdição secular e eclesiástica já tinha acontecido. Na Inglaterra, no entanto, até então os únicos cânons conhecidos pelo clero ou pelos leigos eram aqueles pronunciados pela própria igreja nacional, com o consentimento e concordância do soberano... Os esforços dos bispos romanizadores da Inglaterra, após a conquista, foram constantemente voltados em direção à introdução dos mais importantes artigos do código isidoriano; mais especialmente no que diz respeito à emancipação da propriedade e dotes da igreja de sua dependência da coroa ou da ordenança secular, e das pessoas e causas de oficiais da interferência dos juízes do rei..."

"As primeiras ordenanças de Guilherme, o Conquistador, para a separação dos tribunais eclesiásticos dos tribunais leigos nunca foram realizados até o ponto de isentar os eclesiásticos da responsabilidade perante a lei. Mas é também verdade que ambos o Conquistador e seus sucessores, até João, esforçaram-se em manter um meio termo entre o canonismo e a prerrogativa do rei. Em sua prontidão em estar sempre bem com a corte de Roma, eles frequentemente tomavam passos que colocavam em perigo sua segurança, mas certamente nunca mudavam de sua base antiga, da lei da terra, ou dos direitos da coroa. Na amarga disputa entre o arcebispo Anselmo da Cantuária e Henrique I, este manteve seu direito de determinar quais dos dois rivais pretendentes ao papado o clero de seus domínios deveria reconhecer. E quando Anselmo, sem o consentimento do rei, insistiu na transferência de sua lealdade espiritual para Urbano II, em preferência ao seu rival Clemente III, Henrique, sem rodeios, o informou de que 'ele não conhecia qualquer lei ou costume que tratasse, sem a licença do rei, de estabelecer um papa próprio sobre o reino da Inglaterra; e que qualquer homem que presumisse tirar de suas mãos a decisão quanto a essa questão teria o mesmo direito de tomar a coroa de sua cabeça!'..."

"A disputa entre Henrique e Anselmo foi longa e obstinada. O bispo fugiu para Roma; o rei confiscou os poderes seculares de sua Sé. Enquanto a disputa estava ainda indecidida, um oficial papal apareceu na costa do país anunciando-se como o legado da corte de Roma, sobre quem foi confiado o poder  legatino vindo do papa sobre toda a Inglaterra. Mas o rei tomou como prerrogativa especial de sua coroa aceitar ou rejeitar ao seu bel-prazer tais interferências, considerando ser nada mais do que a tentativa do governo eclesiástico por parte de um príncipe estrangeiro; e o legado foi, então, mandado embora sem ter sido admitido na presença do rei. Cerca de quinze anos depois, o mesmo papa fez uma segunda tentativa de introduzir um legado extraordinário no reino, mas sem melhor sucesso... Uma terceira tentativa do mesmo pontífice foi igualmente mal sucedida. Foi, de fato, nessa época, que ficou muito bem entendido que a lei e o costume da Inglaterra repudiava a comissão legativa como uma interferência ilegal no curso normal do governo eclesiástico, que a lei comum tinha colocado sob a superintendência do soberano."

Mas após a morte do sábio e capaz Henrique I, em 1135, o astuto e perseverante papa -- Alexandre III -- foi mais bem sucedido. No reinado de Estêvão, um monarca fraco, um legado de Roma conseguiu entrar na ilha da Inglaterra. Os clérigos anglicanos compreenderam totalmente a tendência do movimento, e um sínodo realizado em Londres protestou, na presença do legado, contra a presunção de um padre estrangeiro na tomada da cadeira presidencial sobre os arcebispos, bispos, abades, e sobre toda a nobreza de todo o reino da Inglaterra. O protesto, no entanto, permaneceu sem efeito. Um espírito tímido e que se desenvolveria com o tempo estava formigando no coração da igreja anglicana. A ignorância prevalecente da massa de pessoas, o caráter secular do clero, o estado miserável de todo o país durante o reinado de Estêvão, tudo isso favoreceu as sistemáticas invasões do partido romanizador sobre a prerrogativa da coroa e as liberdades da igreja nacional. Os bispos anglo-normandos, na época, eram barões em vez de clérigos, seus palácios eram castelos, seus vassalos pegavam em armas: quase todos usavam armas, se misturavam na guerra, e se entregavam a todas as crueldades e exações da guerra. Tal era o clero da Inglaterra quando Henrique II subiu ao trono em 1154. A oposição de Becket a esse rico e poderoso rei lança uma luz mais clara sobre a ambição secular de Roma do que qualquer dos conflitos que já recordamos. 

domingo, 17 de junho de 2018

A Lei e o Costume Inglês

Desde os mais remotos períodos, os reis da Inglaterra eram reconhecidos tanto pelo clero quanto pelos leigos como tendo o total poder em assuntos pertencentes ao governo externo da igreja. Quer fosse no que diz respeito às propriedades e dotes da igreja, ou das pessoas do clero, a autoridade da coroa era, pela lei e costume do reino, suprema. Eduardo, o rei anglo-saxão, dizia do clero que "eles empunhavam a espada de São Pedro, e ele a espada de Constantino". E de Guilherme, o Conquistador, seu biógrafo diz: "Todos os assuntos, tanto os eclesiásticos quanto os seculares, eram dependentes de seu prazer". Mas durante o século XII, o país gradualmente afundou em um estado de deplorável sujeição à Sé Romana.

Ao mesmo tempo, não podemos nos esquecer que, embora o progresso da igreja tenha ocorrido em direção à Roma, Deus em Sua infinita misericórdia subjugou o poder secular do clero e as grandes conquistas eclesiásticas dos monges para a proteção e bênção dos pobres da terra. Ele sempre pensa -- bendito seja o Seu nome -- no "pobre do rebanho". Pela conquista normanda da Inglaterra, uma hierarquia estrangeira, assim como uma nobreza estrangeira, tinha sido introduzida; mas os baixos ofícios eram geralmente cheios de saxões, cuja linguagem e sentimentos simpatizavam com a população nativa. Isso deu-lhes um imenso poder sobre a mente da população. Eles passaram a ser vistos como os verdadeiros pastores de seus rebanhos, e os guias e consoladores dos aflitos. Os normandos, cuja linguagem e sentimentos eram ainda estrangeiros, eram odiados como seus opressores e espoliadores. O inglês tinha sido sacrificado por Guilherme para suprir as concessões liberais das terras e lugares de honra, que ele concedeu aos seus seguidores, e assim os saxões, por sua vez, foram obrigados a tornarem-se os servos e dependentes de seus conquistadores. Tudo o que o homem semear, isso também ceifará. Seu pecado certamente o encontrará. Mas o sentimento de erro pessoal era outra coisa, e certamente se misturaria em cada novo conflito entre raças. Isso é manifesto na grande batalha entre o rei normando e o primaz inglês, e pode nos ajudar em nosso julgamento sobre seus importantes resultados. Mas devemos primeiramente tomar nota sobre aquilo que conduziu imediatamente à disputa.

Os Abusos de Roma na Inglaterra (1162 d.C.)

Abordaremos agora um período em nossa história que deve despertar peculiar interesse na mente do leitor inglês*. O governo anglo-saxão estava dando lugar ao governo anglo-normando, tanto na igreja quanto no Estado. A completa condição do país, ou estava mudada, ou estava em processo de mudança. Mas o padre italiano estava longe de estar satisfeito com o estabelecimento que eles tinham conseguido sob o reinado dos normandos. A florescente vinha de Nabote (ver 1 Rs 21) era cobiçada e precisava ser possuída, quer por meios justos ou imundos. A Inglaterra, com todo o seu orgulho, riqueza e poder, deveria ser reduzida a um estado de subserviência à Sé Romana. Esse era seu propósito estabelecido e necessário para a realização de seu plano. Observaremos, primeiramente, a posição dos antagonistas, e então a natureza e o fim da feroz batalha.

{*N. do T.: O autor do livro era inglês.}

Durante o reinado de Alexandre III, um pontífice capaz, sutil e vigilante, uma grande disputa surgiu na Inglaterra entre Henrique II e Tomás Becket, arcebispo da Cantuária, que atraiu e absorveu toda a mente da Europa por muitos anos. Isso lembra, em suas principais características, a longa guerra entre Henrique IV e Gregório VII, porém, se é que isso é possível, perseguida com maior amargor e obstinação, e terminando ainda mais tragicamente. Uma colisão tão violenta entre os poderes espirituais e seculares não tinha ocorrido desde os dias de Constantino. O caráter pessoal e a posição dos líderes, sem dúvida, atraíram a atenção do interesse mundial ao conflito. Mas era muito mais que um assunto pessoal: toda a questão do poder de Roma na Inglaterra, a prerrogativa do Soberano e a responsabilidade do assunto, tudo isso estava envolvido nessa nova guerra. Henrique, de verdadeiro sangue normando, estava determinado a se tornar rei e a governar de acordo com as leis e costumes do reino; Becket, um violento eclesiástico, estava igualmente determinado a manter, de acordo com os supostos infalíveis decretos de Roma, que a hierarquia eclesiástica era uma casta separada e privilegiada na comunidade, com direito à isenção de julgamento pelo processo civil, e sujeita apenas a sua própria jurisdição.

O leitor inglês do século XIX ficaria surpreso ao saber que um decreto do vaticano, enviado pelo legado do papa com o propósito de mudar as leis e costumes da Inglaterra, fosse ouvido sequer por um momento. Mas era assim na época; e os mais poderosos monarcas na Europa foram obrigados a se curvarem em humilhante submissão aos pés do pontífice. Mas qual o motivo desse terrível medo de Roma? Nada mais do que a ignorância e superstição do povo em geral. "O sistema romanista, com todas as suas insolentes pretensões, ainda estava envolto em uma auréola sangrenta de reverência supersticiosa, que espantava o pensamento ou o apagava pelo medo da morte temporal e eterna". O astuto padre podia alegar esfregar as chaves de São Pedro na cara de seu oponente, e ameaçar trancá-lo do lado de fora do céu e confiná-lo no inferno, se não obedecesse à igreja. Era sua declarada santidade e sua iníqua perversão das Escrituras que lhe davam tal poder sobre os ignorantes e supersticiosos.

domingo, 10 de junho de 2018

Sumário

Para baixar (até capítulo 17 - Século I ao X - Ano 0 ao 1000 d.C.):
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Sumário:


Prefácio
Capítulo 1 - Verdades Fundamentais
Capítulo 2 - De Pentecostes ao Martírio de Estêvão
Capítulo 3 - De Estêvão ao Apostolado de Paulo
Capítulo 4 - Os Apóstolos e os Pioneiros
Capítulo 5 - As Duas Primeiras Viagens de Paulo
Capítulo 6 - A Terceira Viagem de Paulo
Capítulo 7: Roma e seus Governantes (64 d.C. - 177 d.C.)
Capítulo 8: A História Interna da Igreja (107 d.C. - 245 d.C.)
Capítulo 9: Roma e seus Governantes (180 d.C. - 313 d.C.)
 Capítulo 10: O Período de Pérgamo (313 d.C. - 606 d.C.)
Capítulo 11: Roma e seus Governantes (313 d.C. - 397 d.C.)
Capítulo 12: A História Interna da Igreja (245 - 451 d.C.) 
 Capítulo 13: Roma e a Expansão de Sua Influência (397 - 590 d.C.)
Capitulo 14: Europa (372 d.C. - 814 d.C.)
Capítulo 15: Islamismo - Iconoclastia (569 - 741 d.C.)
Capítulo 16: Europa (653 d.C. - 855 d.C.)
Capítulo 17: Europa (814 d.C. - 1000 d.C.)
Capítulo 18: Europa (1000 d.C. - 1110 d.C.)
Capítulo 19: O Papa Gregório VII (1049 - 1085 d.C.) 
Capítulo 20: As Cruzadas (1093 - 1213 d.C.)
Capítulo 21: Roma (1106 - 1190 d.C.)
Capítulo 22: Inglaterra (1162 - 1174 d.C.)

  • Em breve...

O Encontro entre Adriano e Frederico

Se não fosse por uma circunstância que consideramos puramente infantil, o encontro entre Adriano e Frederico poderia ter passado sem tomarmos nota, de tão pouca relevância que isso tem para a história da igreja. No entanto, o acontecimento tem relevância ao considerarmos a história do papado, e pensamos ser correto observarmos tudo aquilo que manifesta seu verdadeiro espírito no período de Tiatira. Além disso, o mais insignificante incidente revela, às vezes, o propósito mais profundamente arraigado e a mais inflexível determinação.

A pronta concessão do sangue de Arnaldo não tinha removido da mente sombria de Adriano todas as suspeitas quanto às intenções de Frederico. As negociações, no entanto, foram satisfatórias, e Adriano cavalgou até o acampamento de Frederico. Ele foi gentilmente recebido por alguns dos nobres alemães e conduzido à tenda real. O papa permaneceu em seu cavalo, esperando que o imperador viesse e segurasse seu estribo enquanto desmontava. Mas sua espera foi em vão; Frederico não o fez, e o papa desceu sem sua ajuda. Essa falta de homenagem ao supremo pontífice foi considerada um grande insulto e indicativo de hostilidades. A maioria dos cardeais fugiram alarmados, mas o intrépido Nicolas Breakspeare (Adriano) permaneceu. Frederico alegou ignorância do costume, mas o papa recusou se reconciliar ou dar-lhe o beijo de paz até que ele se humilhasse e passasse pela cerimônia. O arrogante alemão disse que consultaria seus nobres. Uma longa discussão se seguiu. Adriano manteve que aquilo era um costume desde os dias de Constantino, o Grande, que segurava o estribo do papa Silvestre. Essa afirmação era totalmente falsa, pois o primeiro ato de tal homenagem tinha ocorrido cerca de cinquenta anos antes, por Conrado III, o inútil e rebelde filho de Henrique IV. Mas esse era uma questão de pouca importância para o partido papal, desde que o imperador fosse humilhado e o papa exaltado. Alegados precedentes eram produzidos de modo a provar que a prática tinha existido por oitocentos anos; e, consequentemente, "como o imperador tinha se negado às honrarias devidas aos apóstolos Pedro e Paulo, não poderia haver paz entre a igreja e o império até que ele cumprisse esse dever ao pé da letra". Tal era a blasfema suposição desses homens perversos. Eles instavam suas pretensões de homenagem por parte da humanidade ao representarem-se como estando no lugar dos apóstolos -- e de Cristo -- do próprio Deus. Como as evidências pareciam estar a favor do papa e Frederico não se importava muito com o assunto, ele se deixou persuadir de que os precedentes eram verdadeiros, e que devia prestar homenagem ao papa. Assim, no dia seguinte, como um filho obediente da igreja, o imperador desmontou do cavalo quando Adriano se aproximou, pegou o freio e segurou o estribo para o papa desmontar. A amizade exterior estava agora restaurada, e o pai espiritual e filho obsequioso avançaram em direção à cidade santa (Roma) e prosseguiram com a coroação.

Após um reinado de cerca de quatro anos, e, podemos acrescentar, de conflitos incessantes e derramamento de sangue, Adriano morreu em 1159. Ele se preparava para uma declaração aberta de guerra e para a excomunhão do imperador, quando a morte pôs um fim ao conflito. Assim a maioria desses homens viveram e assim morreram, em guerra declarada com o poder secular. Frederico Barbarossa é conhecido como o mais poderoso soberano que reinou na Europa desde Carlos Magno. Ele entrou para a terceira Cruzada, como já vimos, em 1189, e morreu, ou foi afogado, nas correntezas do rio Salepe, próximo a Tarso, em 1190.

O Martírio de Arnaldo (1155 d.C.)

O novo papa era um inglês de grande habilidade, e o único inglês que já se sentou no trono papal. Ele era originalmente um monge de Santo Albans, mas foi obrigado a deixar seu lar por causa da severidade de seu pai. Após viajar por algum tempo no continente, estudar teologia e lei canônica com grande ardor e sucesso, e subir de classe em classe na ordem eclesiástica, ele foi, com o tempo, elevado à mais alta ordem da grandeza eclesiástica pelo nome de Adriano IV. Seu nome inglês era Nicolas Breakspeare.

Uma oportunidade então surgiu para que se livrassem do ousado reformador. O imperador Frederico Barbarossa estava a caminho para receber das mãos de Adriano a coroa imperial. Ele enviou uma embaixada de três cardeais para se encontrarem com o imperador, e para solicitar, como preço de sua coroação, a rendição de Arnaldo de Bréscia em suas mãos. Para um homem que pensava tão pouco sobre a vida humana como Frederico, pareceu de fato algo leve de se executar, obrigando então os amigos de Arnaldo a entregá-lo nas mãos dos emissários papais. Não havia tempo a perder, para que seus amigos não ouvissem sobre isso e tentassem resgatá-lo. A igreja tomou por si mesma a responsabilidade pela sumária condenação e execução do rebelde, sem empregar, como de costume, a espada secular. Antes do dia amanhecer, o oficial do papa já tinha sujado suas mãos no sangue de sua vítima; seu corpo foi queimado até as cinzas, que foram jogadas no rio Tibre, para que o povo não coletasse a adorasse as relíquias de seu amigo martirizado. O clero triunfou em sua morte, mas sua memória viveu nas mentes dos romanos. "E nas cinzas da pilha fúnebre de Arnaldo", diz Milman, "o fogo ardeu durante séculos, o que levou, com o tempo, a uma explosão irresistível de violência".

Bernardo, o grande Antagonista de Abelardo e de Arnaldo, tinha falecido em paz em Claraval, no ano de 1153. O santo, o filósofo e o reformador passaram para outro mundo, para serem julgados, não pelos decretos papais, mas pelo trono de eterna justiça e imaculada santidade. A fé no Senhor Jesus Cristo é o único fundamento do perdão e aceitação aos olhos de Deus. Não há purgatório, mas sim o precioso sangue de Sua cruz. Mas, que misericórdia! Esse sangue pode tornar limpo o mais vil! "Purifica-me com hissopo, e ficarei puro; lava-me, e ficarei mais branco do que a neve" (Salmos 51:7). Nada além do sangue de Jesus pode tornar a alma mais branca do que a neve e apta para o céu. Todos os outros meios nada mais são do que uma zombaria, uma ilusão de Satanás que apenas aprofunda e perpetua a culpa da alma. "O sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado" (1 João 1:7). A salvação é pela fé somente, sem as obras da lei. Cristo é a única videira; os crentes são os ramos. "Aquele que diz que está nele, também deve andar como ele andou" (1 João 2:6). Aparte de uma verdadeira e viva fé em Cristo, não há perdão, nem salvação, nem felicidade, e nem o céu; "bem-aventurados todos aqueles que nele confiam" (Salmos 2:12).

Retornemos agora a nossa história, e primeiro tomaremos nota sobre o encontro entre Adriano e Frederico.

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