domingo, 6 de setembro de 2020

A Origem e Caráter dos Dominicanos

Como pensamos ser mais satisfatório conhecer o início das coisas, vamos agora descrever brevemente a origem e o caráter desses dois grandes pilares do orgulhoso templo de Roma. Até esta época -- o início do século XIII -- os esforços dos papas foram quase inteiramente confinados à construção deste templo -- o estabelecimento de sua própria supremacia na Igreja e de sua autoridade secular sobre o Estado. Mas a crescente luz dos séculos XI e XII e a crescente depravação da igreja trouxeram ao campo do testemunho muitas nobres testemunhas de Cristo e de Seu evangelho. O templo começou a se abalar. O clero havia alienado os corações das pessoas comuns por seu poder opressor e ganancioso; e sua indolência, indulgência e imoralidades contrastavam desfavoravelmente com a laboriosidade, humildade, abnegação e consistência dos acusados ​​de heresia. Todo o tecido do catolicismo romano estava em perigo, pois esses heresiarcas estavam espalhados por todas as províncias e entre todas as classes da sociedade, até mesmo na própria Roma. O inimigo, percebendo as necessidades do momento, apressou-se em resgatar a hierarquia ameaçada. Os dois homens da época adaptados a essas exigências eram Domingos e Francisco.

Domingos nasceu em 1170, na aldeia de Calaroga, na Velha Castela. Seus pais eram de nome nobre, o de Gusmão, se não de sangue nobre. De acordo com alguns escritores, o efeito de sua ardente eloquência como pregador foi previsto por sua mãe em um sonho, no qual ela dera à luz um filhote carregando um tição de fogo na boca, com o qual ele incendiou o mundo. Mas quer tenha sido sua mãe ou seu monge historiador que teve tal visão, ele respondeu fielmente à semelhança. O aviso de "Cuidado com os cachorros" nunca teve uma aplicação tão verdadeira quanto em Domingos; e o fogo literal, não apenas o fogo de sua eloquência, foi seu agente de destruição escolhido e favorito desde o início de sua carreira. As chamas do inferno, como assim chamava Domingos e seus seguidores, eram reservadas para todos os hereges, e eles consideravam ser uma boa obra iniciar as queimadas eternas ainda aqui neste mundo. Desde a infância, sua vida foi rigidamente ascética (voltada ao monasticismo). Sua natureza, em um período inicial, mostrou sinais de ternura e compaixão, mas seu zelo religioso, com o passar do tempo, fortaleceu-o contra todo impulso bondoso da natureza. Suas noites eram, em sua maior parte, passadas em severos exercícios penitenciais; ele se açoitava todas as noites com uma corrente de ferro, uma vez por seus próprios pecados, uma vez pelos pecadores deste mundo e uma vez pelos do purgatório.

Domingos tornou-se cônego na rigorosa casa de Osma e logo superou os demais em austeridades. Por causa de sua reputação, o bispo espanhol de Osma -- prelado de grande habilidade e forte entusiasmo religioso -- convidou Domingos a acompanhá-lo em uma missão na Dinamarca. Ele então havia atingido os trinta anos de idade e, embora fosse considerado brando para com os judeus e infiéis, ardia em ódio implacável pelos hereges. Tendo cruzado os Pirineus, o zeloso bispo e seu companheiro se encontraram no meio da heresia albigense; não conseguiam fechar os olhos para o estado vergonhoso do clero romano, para o desprezo em que haviam caído e para a prosperidade dos sectários. A missa não era celebrada em alguns lugares havia trinta anos. Também a comissão papal, que havia sido nomeada por Inocêncio III, por volta do ano 1200, foi encontrada em um estado muito abatido. Essa missão, deve-se lembrar, consistia em homens como Reinerius, Gui, Castelnau e o infame Arnaldo, todos monges cistercienses, a descendência espiritual de São Bernardo. Eles lamentaram amargamente sua falta de sucesso: a heresia era surda às suas advertências e ameaças; não respeitavam a autoridade do papa.

 Os legados papais, de acordo com o bom e velho estilo, marchavam por terra, de cidade em cidade, na mais hierárquica pompa, em ricos trajes, com seu séquito e uma vasta cavalgada. "Como esperar sucesso com essa pompa secular?", questionavam os espanhóis, que eram mais severos. "Semeai a boa semente como os hereges semeiam o mal. Jogai fora essas vestes suntuosas, renunciai àqueles palafréns ricamente adornados, andai descalços, sem bolsa e alforje, como os apóstolos; trabalhai duro, rápido, disciplinai esses falsos mestres." O bispo de Osma e seu fiel Domingos enviaram de volta seus próprios cavalos, vestiram-se com as roupas mais rudes de monge, e, assim, lideraram o exército espiritual.

Essa foi a profunda sutileza de Satanás. O poder do Espírito Santo era manifestado pelos homens dos vales e pelos Pobres Homens de Lyon, que se espalharam pelas províncias; e agora vem uma grande demonstração de falsa humildade e falso zelo, uma vil imitação dos dons e graças do Espírito Santo. Era apenas por meio de tais mentiras e hipocrisia que a autoridade de Roma poderia ser mantida, ou que o inimigo poderia esperar manter as nações da Europa no cativeiro.

Já falamos sobre os trabalhos de Domingos no território albigense. Lá ele passou dez anos se esforçando para erradicar a heresia. Formou-se então uma pequena fraternidade, cujos membros saíam de dois em dois, imitando a comissão do Senhor para os setenta. (Lucas 10; Mateus 10) As queimadas em Languedoque então começaram. Como cães de olfato agudo, os dominicanos iam de casa em casa em busca de presas para alimentar a espada de Monforte e as fogueiras que haviam acendido. As grandes realizações de Domingos garantiram-lhe o favor dos pontífices, Inocêncio III e Honório III, que o estabeleceu nos privilégios de um "Fundador". Ele morreu em 1221; mas, antes de abandonar o cenário de suas crueldades, não menos que sessenta mosteiros de sua ordem surgiram em várias regiões da cristandade. Ele foi canonizado por Gregório IX em 1233. O temível tribunal da Inquisição, direta ou indiretamente, sem dúvida, deve sua origem a Domingos, e os mais numerosos e impiedosos de seus oficiais pertenciam a sua irmandade. Mais alguns detalhes poderão ser mencionados ao falarmos sobre os franciscanos, pois tinham coisas em comum.

As Novas Ordens -- São Domingos e São Francisco

Frequentemente, tem sido observado que, onde o Espírito de Deus está operando por meio do evangelho, e onde há resultados manifestos na conversão de almas a Cristo, aí também o inimigo certamente estará ativo. Ele não vai permitir em silêncio que seu reino seja invadido. Pode ser impedindo o trabalho pela perseguição, ou corrompendo-o, induzindo à autocondescendência, ou imitando-o de maneira iníqua e perversa. Temos muitos exemplos tristes de tais coisas na história de Israel e da Igreja -- casos numerosos demais para serem mencionados aqui; mas veremos agora, neste período de nossa história das instituições monásticas, o que explicará o que queremos dizer.

O objetivo especial das novas ordens que surgiram no início do século XIII era contrabalançar a influência que os pregadores albigenses adquiriram sobre as classes mais pobres do povo ao se familiarizarem com elas e constantemente pregarem o evangelho a elas. Pregar o evangelho de Cristo adequadamente para as classes mais humildes foi completamente negligenciado durante séculos pelo clero da igreja romana. Vez ou outra, um pregador fervoroso surgia, tais como Cláudio de Turin, Arnaldo de Bréscia, Fulco de Neuilly, Henrique, o diácono, ou Pedro Valdo, que se dedicaram à obra do evangelho e à salvação de almas; mas esses casos foram poucos e distantes entre si. Mais comumente, as pregações tinham algum objetivo puramente papista, como as Cruzadas, quando o clero tentava despertar o povo com sua eloquência.

"Em teoria", diz o historiador eclesiástico, "era um privilégio especial dos bispos pregar, mas havia poucos entre eles que tinham o dom, a inclinação, o tempo livre de suas ocupações seculares, judiciais ou bélicas, para pregar até mesmo nas catedrais de suas cidades; no restante de suas dioceses, sua presença era apenas ocasional, um progresso, ou uma visitação de pompa e forma, em vez algum tipo de instrução popular. Praticamente o único meio de instrução religiosa era o Ritual, que, no que diz respeito à linguagem utilizada, há muito havia deixado de ser inteligível; e os padres eram quase tão ignorantes quanto o povo; eles apenas aprendiam a passar pelas observâncias da maneira mais mecânica possível. Os casados, ou clérigos seculares, como eram chamados, embora fossem de longe os mais morais e respeitáveis, agiam em oposição às leis da Igreja, e eram até mesmo sujeitos à acusação de viver em concubinato; portanto, seus ministérios tinham muito pouco peso para o povo. O clero regular obedecia à regra externa, mas, segundo todos os relatos, eles violavam tão flagrantemente os princípios mais severos da Igreja, que seu ensino, se tentassem ministrar um ensino verdadeiro, cairia em descrédito na mente do povo."*

{*Dean Milman, vol. 4, pág. 243. J.C. Robertson, vol. 3, pág. 363.}

Tal estado de coisas na Igreja Estabelecida deixou o caminho aberto para os assim chamados hereges. Eles aproveitaram a oportunidade, entraram em cena e trabalharam diligentemente para divulgar suas doutrinas ao povo. Pregar em público e em privado era o segredo, sob a permissão de Deus, do grande sucesso dos valdenses e albigenses. Esta foi desde os primeiros tempos, e ainda é, a maneira divina de disseminar a verdade e reunir almas para Jesus. Quanto mais pública a pregação, melhor. Em todas as épocas agradou a Deus aquilo que o mundo chama de "loucura da pregação, para salvar os crentes". Pregação ao ar livre, visitas e ensino de casa em casa, testemunho público dentro e fora de casa, são maneiras e meios que Deus sempre abençoará. E esses meios parecem ter sido usados ​​diligentemente por aqueles acusados ​​de heresia em Languedoque (os albigenses).

O inimigo atento, observando o efeito desse modo de ação, muda então sua tática. Em vez de calar todos os membros sinceros, fervorosos e piedosos da igreja de Roma nos mosteiros, para pensarem apenas em si mesmos, instruírem-se, orarem e pregarem apenas para si mesmos, ele agora os envia como pregadores ao ar livre e para invadir os próprios campos que haviam sido ocupados por séculos pelos verdadeiros seguidores de Cristo. Seus emissários tinham ordens estritas, não apenas para imitar os hereges, mas para superá-los, na simplicidade de vestir, humildade, pobreza e familiaridade com o povo. Uma mudança completa ocorre então na história das ordens monásticas; no lugar de monges enclausurados, isolados dos olhos do mundo, fazendo suas orações, trabalhando nos campos ou colhendo os frutos de seus jardins, temos frades pregadores nas esquinas de todas as ruas e em todas as cidades da Europa, sim, implorando de porta em porta. Mas isto não foi tudo; sendo favoritos dos pontífices, eles tomaram a direção de quase tudo na Igreja e no Estado por três séculos. “Eles ocupavam os mais altos cargos, tanto civis quanto eclesiásticos”, diz Mosheim, “ensinavam com autoridade quase absoluta em todas as escolas e igrejas, e defendiam a majestade dos pontífices romanos contra os reis, bispos e hereges, com incrível zelo e sucesso. O que os jesuítas foram depois da Reforma, os mesmos foram os dominicanos e franciscanos do século XIII até os tempos de Lutero. Eles eram a alma de toda a Igreja e do Estado, e os projetores e executores de todos tipo de empreendimento no decorrer de toda essa época."


O Zelo Missionário dos Beneditinos

Os beneditinos, com o passar do tempo, conforme seu número aumentava, enviaram missionários para pregar o evangelho entre as nações, que ainda mergulhavam nas profundezas do paganismo. Estima-se que foram o meio de converter mais de trinta países e províncias à fé cristã ou, como seria melhor dizer, à igreja de Roma. Ainda assim, o Senhor, em Sua misericórdia, poderia, e sem dúvida o fez, usar a cruz de Cristo, mesmo da forma que era pregada, para a salvação. Um pouquinho da verdade sobre a cruz ou sobre o sangue de Cristo é capaz de converter a alma quando o Senhor a usa. Uma mudança notável ocorreu na história da Igreja, ou do Cristianismo, por meio da pregação dos beneditinos e da ordem de São Bento, que apenas mencionaremos e deixaremos para a reflexão dos mais pensativos.

Durante os primeiros três séculos da era cristã, os imperadores e todos os grandes da Terra perseguiram os fiéis seguidores de Cristo; mas, durante os séculos VI, VII, VIII e IX, muitos imperadores e reis renunciaram às suas coroas e tornaram-se monges da ordem beneditina; e também imperatrizes e rainhas se tornaram freiras da mesma ordem. *

{* Para uma lista dos nomes e países desses convertidos, com muitos detalhes, consulte English Monasticism, de O'Dell Travers Hill, p. 101. Consulte também a Encyclopedia Britannica, vol. 4, pág. 562. Os números não concordam em ambos, mas, como o English Monasticism foi publicado somente em 1867 (uma data contemporânea ao autor deste livro, que viveu no século XIX), aceitamos os números dados ali.}

Da reclusão das celas beneditinas, quarenta e oito papas foram levantados para ocupar a cátedra de São Pedro; duzentos cardeais, sete mil arcebispos, quinze mil bispos, quinze mil abades, quatro mil santos e mais de trinta e sete mil estabelecimentos religiosos, incluindo mosteiros, conventos, priorados, hospitais, etc. A ordem também produziu um vasto número de escritores eminentes e outros homens eruditos. Rábano estabeleceu a primeira escola na Alemanha, Alcuíno fundou a Universidade de Paris, Guido inventou a escala musical, Silvestre o órgão, e Dionísio Exíguo aperfeiçoou o cálculo de datas eclesiástico.

"Os abades eram frequentemente pouco inferiores aos príncipes soberanos: seu esplendor era maior na Alemanha, onde o abade de Angia, apelidado ‘o Rico’, tinha uma receita anual de sessenta mil coroas de ouro, e em seu mosteiro ninguém era recebido, exceto os filhos dos príncipes, condes e barões. Os abades de Weissenburg, de Fulda e de São Galo eram príncipes do império. O abade de São Galo entrou certa vez em Estrasburgo com um séquito de mil cavalos."* Por seiscentos anos todas as regras e as sociedades cederam ante a prevalência universal da ordem beneditina. Muitas outras seitas surgiram durante aquele período e, embora diferissem umas das outras em alguns pontos de disciplina ou vestuário, todas reconheciam a Regra de Bento. Os cartuxos, os cistercienses e outros inumeráveis ​​eram apenas ramos que cresciam a partir do tronco original.

{*Christian Sects, de Marsden.}

Esses celebrados resultados da regra do eremita solitário de Monte Cassino se estendem por um período de pelo menos setecentos anos, durante os quais os beneditinos, como todas as outras instituições humanas, experimentaram muitos reveses e muitos avivamentos, os quais não precisamos enumerar exaustivamente. Para complementar este assunto, é interessante notar ainda, que, de acordo com a história frequentemente contada, assim que os monges de São Bento se tornaram ricos e luxuosos, eles começaram a se afastar dos princípios de seu fundador e se entregaram à indolência e a todo tipo de vício. Eles se envolveram em assuntos civis e nas intrigas dos tribunais, buscando apenas promover a autoridade e o poder dos pontífices romanos.

Os Beneditinos

Antes da morte de Bento, que ocorreu em 543, sua ordem havia sido estabelecida na França, na Espanha e na Sicília. Ela se espalhou rapidamente por toda parte. Para onde quer que os monges viajassem, eles convertiam o deserto em um país cultivado; eles derrubaram florestas, drenaram pântanos, criaram abadias majestosas com suas próprias mãos, civilizaram populações rudes, e buscaram a criação de gado e os trabalhos agrícolas de todas as formas. Eles também cultivavam o aprendizado e tinham escolas para os jovens. Mas embora os beneditinos logo se tornassem uma grande comunidade e se espalhassem por vários países, todos estavam sujeitos a uma mesma regra. A época em que essa ordem entrou na Inglaterra é bem conhecida. Santo Agostinho e seus monges eram beneditinos, além de Gregório, que os enviou. Mas embora geralmente seja atribuído a eles o crédito de reduzirem os resíduos utilizando-os na fertilização no cultivo, eles também têm o crédito de escolherem, quando tiveram a oportunidade, os melhores locais da terra para seus assentamentos. "Em cada vale rico", diz Milman, falando da Inglaterra, "ao lado de cada córrego claro e profundo, erguia-se uma abadia beneditina. O trabalho dos monges de plantar, cultivar, projetar jardins ensolarados ou encher as colinas de árvores podem ter adicionado muito à graça pitoresca desses cenários; mas, em geral, se for realizada uma pesquisa sobre algum distrito na Inglaterra, é bem provável que se descubra que o local mais conveniente, mais fértil e mais pacífico fora o local de um abadia beneditina."*

{*Latin Christianity, vol. 1, p. 426. English Monasticism, de Hill, p. 71. Faiths of the World, de Gardner, vol. 1, p. 318. Neander, vol. 3, p. 351.}

A primeira intenção de São Bento não era fundar uma ordem monástica, mas simplesmente prescrever regras para os monges italianos, de acordo com a prática dos anacoretas e reclusos da igreja primitiva. Mas os monges de Monte Cassino logo se tornaram famosos por sua inteligência superior, vida pacífica, hábitos corretos e zelo fervoroso. Em um país e em uma época em que a contenda, a rapina, a ignorância e os costumes dissolutos eram universais, o tranquilo e sagrado mosteiro representava um convidativo refúgio, onde, durante o breve período da vida, o homem poderia cumprir seus deveres religiosos e encerrar seus dias em paz com o céu e com a humanidade. O jovem espírito ardente que entrava no mundo tinha poucas opções de vida; praticamente se resumia a uma escolha entre uma vida de guerra, violência e maldade -- uma vida de alegrias e tristezas ferozes -- ou de reclusão, humildade, obediência e trabalho abnegado. As naturezas mais pensativas e tímidas deram as boas-vindas ao novo refúgio de descanso. Homens de todas as classes deixaram seu luxo ou pobreza e se juntaram à nova comunidade; e assim foi aumentando, até que sua riqueza e poder fossem incríveis. As estatísticas a seguir darão ao leitor uma idéia melhor da opulência dessas antigas abadias beneditinas do que meras descrições.

"A propriedade pertencente ao mosteiro pai de Monte Cassino, com o tempo, passou a incluir quatro bispados, dois ducados, trinta e seis cidades, duzentos castelos, trezentos territórios, trinta e três ilhas e mil seiscentos e sessenta e duas igrejas. O abade assumiu os seguintes títulos: Patriarca da Santa Fé; Abade do Santo Mosteiro de Cassino; Chefe e Príncipe de todos os Abades e Casas Religiosas; Vice-chanceler das Sicílias, de Jerusalém e da Hungria; Conde e Governador da Campânia e Savona e das Províncias Marítimas; Vice-Imperador; e Príncipe da Paz."*

{*Dictionary of Christian Churches and Sects, de Marsden, p. 635.}

A Regra de São Bento

A sabedoria deste grande monge como legislador, e a superioridade de sua disciplina sobre tudo o que existia anteriormente, encontram-se principalmente no lugar que ele dá ao trabalho manual. Essa era a característica distintiva da nova ordem -- trabalho físico árduo e saudável. O monasticismo tinha sido até então quase que inteiramente uma vida de mera reclusão e contemplação, apoiada pela caridade do público ou pelos impressionáveis camponeses das vizinhanças do mosteiro. Bento viu os efeitos perversos desse estado de existência ocioso e sonhador, e tomou amplas providências para a ocupação dos monges. Ele rotulou a ociosidade como inimiga da alma e do corpo. Deviam não somente trabalhar na oração, adoração, leitura e educação dos mais jovens, como também trabalhar com as mãos, como com o machado na floresta, a pá nos campos e a espátula nas paredes. As vantagens desse novo sistema eram grandes. As abadias beneditinas tornaram-se assentamentos agrícolas industriosos. A agricultura e as artes da vida civilizada foram introduzidas nas regiões mais bárbaras, e o deserto, sob as mãos dos monges, floresceu com fertilidade.

Embora a ordem de São Bento fosse em todos os sentidos contrária à letra e ao espírito da Palavra de Deus, ela tinha mais razão e bom senso do que os sistemas ociosos e lânguidos do Oriente. "Ele era um daqueles que sustentavam", diz Travers Hill, "que para viver neste mundo um homem deve fazer algo -- que aquela vida que consome, mas não produz, é uma vida mórbida, e na verdade uma vida impossível -- uma vida que tenderá à decadência -- e, portanto, imbuído da importância desse fato, ele fez do trabalho, trabalho contínuo e diário, o grande fundamento de sua regra." Sua penetração na sociedade também é vista em sua consideração pelo clima hostil do Ocidente e pelas constituições europeias. Suas leis eram mais brandas e praticáveis ​​do que as que haviam sido tentadas nos países orientais; a dieta era bem mais generosa, e ele não propunha nenhuma mortificação extrema, mas permitia que seus seguidores vivessem de acordo com os hábitos comuns de seus respectivos países. Nessas considerações sábias e razoáveis ​​está todo o segredo do maravilhoso sucesso da ordem beneditina.

Mas, com nossas noções modernas de qualidade de vida e de estarmos acostumados com relativamente poucos serviços religiosos no decorrer da semana, o leitor pode estar disposto a questionar o que dissemos sobre a brandura das regras monásticas e a natureza generosa da dieta. Falamos nesse sentido em comparação com o Oriente, de onde se originou o monasticismo.

Às duas horas da manhã, os monges eram despertados para as vigílias, ocasião em que doze salmos eram cantados e certas lições das escrituras lidas ou recitadas. Eles se reuniam novamente ao amanhecer para as matinas; este serviço era quase igual ao primeiro, de modo que em suas vigílias e matinas vinte e quatro salmos deviam ser cantados todos os dias, para que o saltério pudesse ser completado a cada semana. O tempo para suas devoções internas e seu trabalho externo era planejado, no verão e no inverno, conforme o superior achasse conveniente. Mas eles eram obrigados a comparecer a pelo menos sete serviços religiosos distintos a cada vinte e quatro horas, além de sete horas por dia de trabalho. Eles tomavam o café da manhã por volta do meio-dia e jantavam à noite. Sua alimentação habitual consistia em vegetais, grãos e frutas; meio quilo de pão por dia para cada monge e uma pequena quantidade de vinho. Na mesa pública nenhuma carne era permitida; somente aos enfermos era dada comida de origem animal, que, às vezes, comiam ovos ou peixe à noite. Mas todos os dias na Quaresma jejuavam até as seis da tarde e tinham menos tempo para dormir.

A roupa dos monges devia ser rústica e simples, mas variável, de acordo com as circunstâncias. Foi-lhes permitido ter o luxo das botas. A vestimenta externa deles era um vestido preto solto, com mangas largas, e um capuz na cabeça com uma parte pontuda atrás. Cada monge tinha dois casacos, dois capuzes, um livro de mesa, uma faca, uma agulha e um lenço. A mobília de suas celas era uma esteira, um cobertor, um tapete e um travesseiro. Cada um tinha um leito separado e dormiam vestidos. Um reitor deveria presidir cada dormitório e uma luz deveria ser mantida acesa em cada um. Nenhuma conversa era permitida após se retirarem aos seus aposentos. Por pequenas faltas eram excluídos das refeições da irmandade, e por maiores eram excluídos da capela; infratores incorrigíveis eram excluídos do mosteiro.

Assim se passava o longo e tedioso dia do monge que condenava a si mesmo a essa vida; desde as vigílias da meia-noite até as vésperas da noite, todas as suas observâncias eram meramente mecânicas. Ao entrar no mosteiro, ele renunciava totalmente a todas as espécies de liberdade pessoal. Seu voto de obediência implícita a seus superiores em tudo era irrevogável. Ninguém podia receber um presente de qualquer espécie, nem mesmo de seus pais, nem manter correspondência com pessoas de fora do mosteiro, a não ser que passasse pela inspeção do abade. Um porteiro sempre se sentava ao portão, que era mantido trancado dia e noite, e nenhum estranho era admitido sem a permissão do abade, e nenhum monge podia sair a menos que tivesse a permissão de seu superior.

O jardim, o moinho, o poço, o forno de pão, ficavam todos dentro dos muros, de modo que não houvesse necessidade de sair do mosteiro. A ocupação de cada monge seria determinada pelo abade. Um monge que antes era rico e de nascimento nobre estaria então sem um tostão e podia ser nomeado cozinheiro ou servente, alfaiate, carpinteiro ou poceiro, de acordo com o desejo do superior absoluto; a qualidade e a quantidade de sua comida eram prescritas e limitadas como se fosse a menor criança. Ele não tinha permissão para falar, salvo em determinados momentos. Todas as conversas eram estritamente proibidas durante as refeições; alguém lia em voz alta o tempo todo.

Assim estava o homem -- o homem social -- isolado da sociedade. A mulher, que Deus deu ao homem, devia ser considerada não apenas uma estranha aos seus pensamentos, mas a inimiga natural de sua perfeição solitária. Pela sutileza de Satanás, o ego era o objetivo supremo de todos os monges -- e de todos os sistemas de monastério. Com que força as palavras do apóstolo vêm à mente quando meditava sobre a liberdade de Cristo e a escravidão de Satanás: "Mas o que para mim era ganho reputei-o perda por Cristo". Observe estas palavras verdadeiramente cristãs, "o que para mim era ganho -- ganho para mim!" Se é apenas ganho para mim, qual é o bem dessas coisas? Eu quero Cristo. Eu vi Cristo em glória. Eu quero ser como ele. Tudo de que aquela carne religiosa podia se gabar, o que era ganho para ele, ele jogou para trás como a mais simples escória. "E, na verdade", continua ele, "tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor". Que cegueira, que perversidade, para quem prefere a ordem de São Bento a Filipenses 3 -- ao amor e à liberdade de Cristo! Mas tamanho era o poder enganador de Satanás que fazia o homem pensar que o caminho certo, senão o único, para o céu, era se tornando um monge.

domingo, 16 de agosto de 2020

São Bento

Uma vez que quase todas as instituições monásticas em toda a Europa, por mais de seiscentos anos, foram regulamentadas pela Regra de São Bento, basta apenas darmos algum relato sobre essa célebre ordem para conhecermos a constituição e o caráter de todas elas. E, como o nome delas é legião, pouparemos o leitor de demasiada repetição.

Esse homem notável era filho de um senador romano nascido em Núrsia, na Itália, tendo nascido em 480 d.C. Aos 12 anos, foi enviado para estudar em Roma. Ele provavelmente tinha ouvido e lido sobre a vida dos santos anacoretas e eremitas do Oriente. Com esses exemplos diante de sua mente e as irregularidades de seus colegas estudantes ao seu redor, ele ansiava pela solidão. Por volta dos quinze anos de idade, incapaz de suportar por mais tempo o estado corrupto da sociedade romana, ele se separou até mesmo de sua fiel babá, Cirila, que havia sido enviada com ele a Roma por seus pais, e a deixou lamentando sua perturbação mental. Os ferozes hunos e vândalos haviam transformado até o coração da Itália em um deserto, de modo que o jovem eremita encontrou um local isolado não muito longe de Roma. Por anos ele viveu em uma caverna solitária; a única pessoa que conhecia o segredo de seu retiro era um monge chamado Romano, que lhe fornecia pão da economia de uma parte de sua própria mesada diária. Mas, como uma rocha íngreme ficava entre o claustro de Romano e a gruta de Bento, o pão era descido por um barbante até a boca da caverna. Com o tempo, ele foi descoberto por alguns pastores, que ficaram encantados ao ouvir suas instruções e testemunhar seus milagres. À medida que a fama de sua piedade aumentava, ele foi persuadido a se tornar abade de um mosteiro das redondezas; mas a rigidez de sua disciplina desagradou seus internos, e eles concordaram em se livrar do severo recluso misturando veneno em seu vinho. Mas, ao fazer o sinal-da-cruz, o que geralmente fazia com sua comida e bebida, o copo se despedaçou; então ele repreendeu suavemente os monges e voltou para sua caverna na montanha.

Bento tornara-se então de maior interesse do que nunca. Sua fama se espalhou, grandes multidões se lhe aglomeravam, homens ricos e influentes se lhe juntaram, e grandes somas de dinheiro foram colocadas à sua disposição. Ele estava então em condições de construir doze mosteiros, cada um deles consistindo de doze monges, sob um superior. Tendo conseguido até então cumprir o objetivo de sua residência no distrito, e inquieto com a invejosa interferência de Florêncio, um padre vizinho, deixou o vilarejo de Subiaco com alguns seguidores no ano de 528. Após algumas andanças, chegou ao Monte Cassino, onde Apolo ainda era adorado pelos rústicos. Com grande habilidade e energia ele desenraizou os restos da idolatria pagã entre os camponeses. Ele cortou o bosque sagrado, destruiu o ídolo de Apolo que havia ali, e no local do altar foi erguido um oratório, que ele dedicou a São João Evangelista e a São Martinho. Essa foi a semente do grande e renomado mosteiro que se tornou a raiz mãe de inúmeros ramos que em pouco tempo cobriram a face da Europa. Aqui, Bento redigiu sua famosa Regra, por volta do ano 529. Ela consiste em setenta e três capítulos que contêm um código de leis que regulamenta os deveres dos monges entre si e entre o abade e seus monges. Ele provê regras para a administração de uma instituição, composta de toda variedade de caráter, engajada em toda variedade de ocupação, mas tudo estando perfeitamente sujeito a um governante absoluto. A abrangência de seu sistema é surpreendente por ser o resultado de uma única mente e sem exemplos ou precedentes. A Regra de São Bento é considerada pelos eruditos como o monumento mais célebre da antiguidade eclesiástica e foi, em suas operações, a própria força e palavra de ordem da dominação de Roma sobre o continente europeu.

sábado, 18 de julho de 2020

Monges Antigos e Modernos

A origem e a história inicial do monasticismo foram cuidadosamente traçadas no Capítulo 12 deste livro; mas, como seu caráter muda completamente no século XIII, será fácil esboçar seu progresso desde os primeiros tempos, e assim, ver mais claramente o contraste. Esse plano também nos dará a oportunidade de olhar a condição interna da igreja de Roma antes que a luz da Reforma penetre e revele suas terríveis trevas.

No final do século III, mas especialmente durante o quarto, os desertos da Síria e do Egito tornaram-se morada de monges e eremitas. Os lugares mais privados e pouco frequentados no vasto deserto foram selecionados pelos primeiros reclusos. Os relatos da santidade deles, de seus milagres e devoção se tornaram a principal literatura da igreja. A infecção se espalhou. Homens ansiosos por se destacar na santidade ou obter a reputação de uma piedade peculiar abraçaram a ordem monástica. A prática prevaleceu tão rapidamente que, antes do início do século VI, estendia-se em igual proporção à própria Cristandade. Havia três classes desses monges antigos. 1. Solitários -- aqueles que moravam sozinhos em lugares distantes de todas as cidades e habitações dos eremitas dos homens. 2. Coenobitas -- aqueles que viviam em comum com os outros na mesma casa para fins religiosos e sob os mesmos superiores. 3. Sarabaítas -- descritos como monges irregulares que peregrinavam, que não tinham regra ou residência fixos. Estes podem ser considerados dissidentes dos Coenobitas, que viviam dentro de seus próprios portões. O muro que os confinava, em alguns casos, também encerrava seus poços e jardins, e tudo o que era necessário para o sustento deles, de modo a não deixar nenhum pretexto nem mesmo para uma relação ocasional com o mundo que eles haviam abandonado para sempre.

Aqueles a quem chamamos de monges hoje em dia são os coenobitas, que vivem juntos em um convento ou mosteiro, fazem votos de viver de acordo com uma certa regra estabelecida pelo fundador e vestem um hábito que marca a distinção de sua ordem.

As revoluções do Ocidente, no século V, mostraram-se favoráveis ​​ao monasticismo. Os bárbaros ficaram impressionados com os números, peculiaridades e professada santidade dos monges. Suas residências, portanto, não foram perturbadas e tornaram-se um refúgio tranquilo dos problemas da época. A superstição lhes dava honra; a riqueza começava a fluir, mas com ela degeneração e corrupção. Já havia espaço para um reformador, e a pessoa que apareceria nesse caráter era o famoso São Bento.

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